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Ágora
Os ‘manuais de missa’ e a interpretação da mensagem litúrgica no Rio colonial

Encontrados em número expressivo no mercado livreiro carioca nas últimas décadas do período colonial, os volumes intitulados genericamente “manuais de missa” destinavam-se a orientar os representantes da minoria letrada da cidade em sua participação periódica na celebração eucarística. Tornando possível aos fiéis leitores decifrar o significado geral dos atos litúrgicos e ainda estimulando-os a se envolverem emocionalmente no “santo sacrifício” do Cristo, os manuais em exame, como se espera demonstrar, revelam aspectos interessantes da espiritualidade e da vivência religiosa católica em curso no Rio de Janeiro do século XVIII.
Palavras-chave: missa, liturgia, espiritualidade, catolicismo, Rio de Janeiro colonial.

As lições dos catecismos adotados na diocese fluminense, destinadas a serem ministradas pelos padres com cura de almas e repetidas pelos fiéis presentes às igrejas e capelas, resumiam bem uma das formas assumidas, em fins do período colonial, pela formação metódica dos mesmos fiéis nos valores e princípios da fé católica — inclusive, claro está, no tocante à preparação para a participação no sacrifício da missa. O uso de semelhantes catecismos, sobretudo os de Montpellier, foi sempre, por sinal, exemplo dos mais expressivos dos atributos de oralidade e de publicidade associados por Luiz Carlos Villalta a boa parte da leitura feita em tempos coloniais1. Oral e pública, em sua essência, a recitação em voz alta das perguntas e respostas gravadas em tais catecismos representou, antes de mais nada, um meio eficiente de estender o ensino da doutrina até as ovelhas destituídas de acesso à letra escrita — as quais, como é sabido, eram legião naqueles tempos. Essa abrangência que se visava alcançar em tal modelo de catequese nos remete, por fim, a um terceiro atributo peculiar à utilização das obras em pauta, decorrente, em boa medida, dos dois anteriores: trata-se, assim, do caráter massivo dessa utilização, voltada para a promoção espiritual de todo o povo cristão, e ainda de seus membros menos cultivados intelectualmente ou daqueles dispersos pelas senzalas e fazendas do sertão.
Contudo, no Rio de Janeiro do século XVIII, a instrução religiosa dos fiéis por parte da Igreja e de seus representantes obedecia também a outras estratégias, as quais, em certos casos, pouco tinham daquelas características imputadas acima ao ensino baseado nas lições dos catecismos. Uma dessas estratégias, que gostaríamos de focalizar a partir de agora, apoiava-se em outro gênero de escritos, diferentes dos mesmos catecismos em muitos aspectos importantes, a começar pelo fato de se acharem concebidos, via de regra, para serem consultados diretamente pelos ditos fiéis, isto é, lidos ao invés de ouvidos pela boca do pároco ou de outro sacerdote encarregado da catequese.
Dentre esses escritos, uma boa parte se destinava a auxiliar os católicos em seus exercícios devotos, provendo-os de orações, como salmos, hinos, etc., que pudessem ser recitadas em ocasiões diversas, geralmente como forma de homenagear a Santa Virgem ou um determinado santo de devoção: são os devocionários propriamente ditos, cujo amplo repertório inclui desde folhinhas de reza até novenas e livros de horas2. Havia também opúsculos contendo instruções e advertências relativas à participação nos sacramentos, com destaque para os muitos métodos ou aparelhos para confessar-se bem e para ajudar a bem morrer — esses últimos envolvendo, entre outros, o sacramento da extrema-unção. Um terceiro grupo compreendia, finalmente, textos voltados para capacitar os fiéis a assistir com proveito os ritos e orações da liturgia. Nesse terceiro grupo é que, como é óbvio, haveremos de encontrar as obras que situaremos no primeiro plano da presente análise: conhecidas por vários nomes como “explicações”, “manuais” ou “livros” de missa, tais obras pautavam-se, assim, pelo objetivo de aprimorar a assistência ao santo sacrifício, em benefício tanto da celebração como um todo quanto de cada um que se guiasse por seus conselhos e ensinamentos.
Publicadas em Portugal pelo menos a contar do século XVIII, em traduções de escritores consagrados ou como obra de eclesiásticos nacionais, as explicações da missa referidas devem ser tidas como tributárias de uma importante mutação operada, desde meados da centúria anterior, nos modelos de participação dos fiéis na celebração eucarística: instigada por certos autores espirituais, e em especial pelos padres do Oratório, tal mutação levou a que não se considerasse mais suficiente apenas estar a rezar o terço ou outras devoções durante a mesma celebração; tornava-se necessário, em troca, unir-se em espírito e em afetos ao celebrante no altar — em uma fórmula já familiar a todos quantos conhecem as lições dos catecismos de Montpellier e de outros semelhantes3.
Ao mesmo tempo, e ao lado dos demais escritos mencionados com brevidade logo acima, as explicações citadas afiguram-se como diretamente filiadas ao movimento chamado de “devoção moderna”, iniciado em fins do século XIV nos Países Baixos e disseminado depois pela Alemanha e pela França4. A ênfase, característica desse movimento, na praxis da vida espiritual, em detrimento da mística e da especulação teológica, parece, com efeito, dar o tom das obras em apreço, menos preocupadas em franquear aos leitores o acesso às verdades sagradas e mais em servir-lhes de fonte de orientação no desempenho de seus deveres religiosos, como era o caso da assistência periódica à missa.
Rastrear o emprego dos tais livros de missa no contexto histórico em pauta é tarefa que requer, por outro lado, alguns cuidados essenciais. O primeiro deles consiste em atentar para as limitações sofridas pelo mencionado emprego em decorrência da própria forma por ele assumida, tão distante da que distinguia o uso dos catecismos: de fato, o contato direto exigido entre os usuários dos ditos livros e o texto impresso, dando lugar à meditação individual e silenciosa sobre seus ensinamentos, por força restringia o número de tais usuários, antes de mais nada, ao universo bastante acanhado dos que dominavam as artes de ler e de escrever. A hipótese de uma leitura silenciosa e introspectiva de semelhantes obras é, aliás, especialmente reforçada quando se tem em conta a ocasião prevista para a mesma leitura, isto é, a missa, na qual o sacerdote detém a palavra por quase todo o tempo, e o propósito que a ela subjaz, que é o acompanhamento atento e quieto das cerimônias do altar.
As limitações referidas, é bom que se diga, subsistem durante todo o período aqui contemplado; são apenas atenuadas, em alguma medida, por certos fatores de tipo conjuntural, a começar pelo crescimento populacional e urbano do Rio de Janeiro na segunda metade do século XVIII e nos decênios seguintes, assinalado pela elevação da cidade a capital do vice-reino em 1763 e, principalmente, por sua escolha para nova sede da Corte joanina a contar de 1808.
As conseqüências desse crescimento no mundo dos livros e da leitura em geral foram já bastante estudadas. Podemos resumi-las a contento fazendo alusão a dois processos ligados intimamente entre si: de um lado, a ampliação do montante de alfabetizados e, por conseguinte, do mercado consumidor dos mesmos livros; de outro lado, o aumento concomitante da oferta e da comercialização dos referidos gêneros. Assim é que, no tocante à demanda, são consideráveis os efeitos benéficos do progressivo incremento do setor de serviços e do funcionalismo, sem contar com o poderoso influxo da vinda da família real portuguesa, enriquecendo o público leitor já existente nestas terras com a adesão de numerosos representantes de uma elite cortesã especialmente cultivada e exercitada nos hábitos de leitura. A partir de 1808, tem lugar então uma elevação mais pronunciada do ambiente cultural como um todo, comprovada, por exemplo, pelos desenvolvimentos observados na educação feminina, estudados por Maria Beatriz Nizza da Silva através dos anúncios das novas aulas e colégios para moças estampados nas páginas da Gazeta do Rio de Janeiro5. Por seu turno, o crescimento do comércio e da circulação de livros na cidade do Rio, sobretudo em princípios dos oitocentos, foi já objeto de análises que levaram em conta, entre outros elementos, a quantidade de livrarias e demais postos de venda espalhados pela urbe, a publicidade feita pelos livreiros e os registros das obras remetidas desde o Reino até este lado do Atlântico6.
Todas essas transformações, embora resultassem, presumivelmente, em um certo aumento no número dos que possuíam os manuais de missa nas últimas décadas de nosso período, não nos devem fazer perder de vista o quão insignificante houve de ser sempre o referido número em relação ao total da população do Rio de Janeiro e seus arredores. Em contraste com as noções sobre a participação no sacrifício difundidas a essa população por intermédio dos catecismos, os ensinamentos contidos nos mesmos manuais dirigiram-se em todo o tempo, por conseguinte, a uma ínfima e bem selecionada minoria, apta a buscar na leitura de tais obras o caminho para um acompanhamento mais elaborado da liturgia.
Imersos no fluxo sobremaneira caudaloso dos escritos sobre matéria religiosa comerciados e adquiridos naquela época, os guias para a assistência à celebração eucarística têm sua existência atestada graças a certas fontes concernentes à propriedade e à circulação de livros em geral. Se examinarmos o inventário dos bens deixados pelo famoso negociante “de grosso trato” Elias Antônio Lopes, citado por Maria Beatriz Nizza da Silva em sua obra sobre o Brasil de D. Maria I e de D. João VI, iremos localizar, por exemplo, a par de um Ano meditativo e de um exemplar das Visitas do Santíssimo Sacramento, certo volume denominado Modo de assistir à missa7. Da mesma sorte, entre os títulos que compõem a Notícia dos livros postos à venda no Rio de Janeiro, no ano de 1811, pelo livreiro e impressor da Bahia Manuel da Silva Serva é possível encontrar, além de um Manual devoto para assistir à missa, um número indefinido de “manuais de missa pequenos” — concebidos, decerto, para serem portados com maior comodidade pelos fiéis que os levavam consigo às igrejas e capelas8.
Para uma verificação mais completa acerca da presença das explicações da missa em nossa conjuntura, torna-se necessário, por outro lado, recorrer aos papéis acumulados durante o funcionamento da Real Mesa Censória, tribunal régio encarregado de zelar pelo controle e censura dos livros e impressos em circulação tanto no Reino quanto em terras de ultramar. Dentre esses papéis, despertaram nosso interesse as relações das obras enviadas de Portugal com destino ao Rio de Janeiro, cujas datas recobrem um intervalo que vai de 1795 até a década de 1820 inclusive9.
Graças a semelhantes registros, foi possível, em primeiro lugar, flagar a remessa para essa última cidade do conhecido livro do padre Pierre Le Brun sobre as preces e cerimônias da missa, publicado originalmente em Paris no início do século XVIII. Embarcado, em uma versão traduzida de 1787, pelo conhecido livreiro Francisco Rolland aos 18 de maio de 179610, tal livro consta ainda das listas apresentadas por Bernardo Ribeiro de Carvalho Braga (“Explication des Ceremonies de la Messe por Le Brun”) e por Anacleto da Silva (“Le Brun. Explicação da Missa”) — datadas, respectivamente, de 28 de setembro de 1816 e de 1º de setembro do ano seguinte11.
Com o auxílio da referida tradução de 1787, podemos ter acesso ao conteúdo desta obra12. O gênero de preocupações que move seu autor é bem resumido em certas considerações dirigidas diretamente aos leitores, como a de que o ouvir missa não pode consistir apenas em mera “assistência exterior”13. Ao invés disso, como escreve Le Brun, é necessário que “tanto quem celebra como quem assiste considere no que se diz e no que se faz, porque o sacrifício é comum”14. Consoante com esse objetivo, o plano geral que norteia a mesma obra leva a se passar em revista a seqüência dos ritos e orações da liturgia, merecendo cada um deles uma breve explanação destinada não apenas a instruir, mas também a inspirar os fiéis — ou, como se afirma a certa altura, a declarar “o sentido espiritual das ações espirituais que na missa se fazem, e o das preces que nela se dizem, para que tudo seja tanto mais venerado quanto for mais bem entendido”15.
Assim, por exemplo, em determinada rubrica se descreve a adoração da hóstia pelo sacerdote logo após a consagração, com explicações sobre o significado das genuflexões e do ritual da elevação. Em seguida, são endereçadas ao leitor as seguintes palavras:

É tradição antiga que depois da consagração assistem os anjos à roda da eucaristia com sumo respeito, como guardas que cercam o rei Jesus Cristo para o reverenciar e adorar. E como deixaremos nós de adorar com viva fé aquele a que vêm e adoram os anjos? (...) Faz-se a adoração humilhando o corpo, com intenção de totalmente nos submetermos àquele a quem adoramos como nosso primeiro soberano princípio e último fim, acompanhando sempre com o ato interno a genuflexão exterior16.

Os limites da explicação do santo sacrifício oferecida pelo padre Le Brun são trazidos à luz, por sua vez, em passagem na qual o mesmo informa não ter julgado apropriado “traduzir literalmente em vulgar” tudo o que se diz na santa missa, pois que, “assim como não é lícito aos sacerdotes celebrá-la em língua vulgar, assim também não é conveniente aos assistentes lerem-na na mesma língua” — devendo esses últimos, por conseguinte, se darem por satisfeitos em apreender pela leitura o sentido geral de suas partes e de seu desenrolar17.
Se voltarmos agora a perscrutar em conjunto os róis dos títulos expedidos do Reino para a cidade do Rio de Janeiro, não nos será difícil constatar que a soma das obras mencionadas em tais papéis que podiam ser assimiladas aos guias para a assistência à missa que aqui nos interessam estava longe de se esgotar com o livro citado do padre Le Brun. Com efeito, na própria remessa efetuada por Franscisco Rolland em 1796 se vislumbra, pouco abaixo da “Explicação das cerimônias da missa”, certa referência a um “Modo de assistir à missa”, traduzido do francês por autor anônimo18. Semelhante designação, adicionada a outras como “manual da missa” e, mais raramente, “livro da missa” ou “de assistir à missa”, aparece, por sinal, com notável freqüência nos mencionados papéis, contando-se às dezenas no total e dividindo espaço, nas listas, com títulos sobre o santo sacrifício destinados a clérigos, como os conhecidos missais romanos e os chamados “cadernos de missas” — novas ou de defuntos.
Podemos, assim, localizar as designações citadas em muitas das remessas ordenadas regularmente por alguns dos mais afamados mercadores de livros em atividade nos anos de 1795 em diante, como sejam, além do próprio Rolland, João Batista Reycend, viúva Bertrand e filhos, Paulo Martin e os donos da casa Borel, Borel e Cia. Em certos casos, as menções aos guias para participar da celebração chamam especialmente a atenção, permitindo formar uma idéia aproximada do volume atingido por seu comércio no Novo Mundo: Antônio José dos Santos Roiz, identificado como negociante, registra, por exemplo, aos 18 de fevereiro de 1796, o seu propósito de embarcar de Lisboa para o Rio de Janeiro “12 dúzias de manuais da missa”19. De forma similar, a lista apresentada por certo Luís Caetano Barboza em 6 de agosto de 1800 antecipa a circulação por essa última cidade de “cinco dúzias de livrinhos pequenos manuais da missa”20. A fé na boa vendagem desses “livrinhos” é compartilhada ainda pela firma da viúva Biester e filhos, responsável pelo envio, aos 24 de julho de 1819, de um total de “10 dúzias de manuais da missa” — juntamente, aliás, com outros lotes bem alentados de obras de teor religioso também populares à época, como as “horas marianas” (50 unidades), as “cartilhas de doutrina” (50 dúzias), além dos indefectíveis “livrinhos de Santa Bárbara” (25 grosas)21.
A despeito da freqüência relativamente alta com que os livros em pauta se acham referidos na documentação, obter uma identificação mais concreta dos mesmos constitui empresa das mais espinhosas. Isso é assim, antes de tudo, porque as citações encontradas parecem aludir antes a um gênero de publicação, por assim dizer, do que a este ou aquele título em particular. Só em pouquíssimas ocasiões, portanto, as rotineiras menções a “manuais da missa”, “modo de assistir à missa”, etc., chegam a desdobrar-se um pouco mais, ganhando versões assemelhadas a nomes de obras, como acontece em “Manual devoto para assistir à missa” e em “Modo prático para os fiéis assistirem à missa” — localizadas, respectivamente, em listas fornecidas aos 30 de agosto e aos 12 de julho de 181922. Todavia, ainda nesses casos, como em todos os demais, não há quaisquer dados sobre o local e o ano da edição, nem tampouco sobre o nome do autor — não raro, aliás, informa-se algo sobre a decisão desse último de permanecer anônimo.
Diante de dificuldades dessa monta, achou-se por bem oferecer apenas uma pequena amostra do gênero de orientação proporcionada aos fiéis da época por esses manuais devotos, sem a pretensão de tomar tal amostra como representativa de todo o conjunto desses mesmos manuais, nem de discorrer a partir dela sobre as nuanças e tendências mais gerais desse tipo de produção. Para levar a cabo esse propósito, contamos com alguns livros de pequeno formato cujos títulos evocam diretamente as referências primárias de que se vem tratando aqui: um Modo Perfeito de Ouvir Missa, sem autor (Porto, 1782), o Modo de Assistir ao Santo Sacrifício da Missa de frei Domingos Francisco de Moura (Lisboa, 1794) e o Modo Breve e Devoto para Ouvir com Fruto o Santo Sacrifício da Missa (Lisboa, 1781), obra escrita originalmente em italiano por São Leonardo de Porto Maurício (1676-1755), missionário popular célebre por sua pregação em favor da participação no mesmo sacrifício, e que teve pelo menos duas outras edições em português anteriores ao ano de 1781, e ainda uma terceira, da década de 180023.
Uma breve consulta aos livros citados, caracteristicamente padronizados no formato e na mensagem, é o quanto basta, assim, para a identificação de alguns de seus principais traços definidores. À diferença da obra recém comentada de Pierre Le Brun, distinguida, em boa medida, como fonte de informação e de estudo para os interessados em se aprofundar nos segredos da liturgia, os mesmos livros, de leitura mais escorreita, fazem jus, antes de mais nada, à designação de manuais pela qual são muitas vezes conhecidos: bem menos ricos em descrições e explicações de estilo erudito, almejam, por outro lado, ser de utilidade mais imediata para os fiéis; restringem-se, portanto, em suas poucas dezenas de páginas, a prover esses últimos dos instrumentos requeridos para “ouvir com fruto” a celebração da eucaristia.
O seu caráter essencialmente prático, de escritos destinados a serem portados e manuseados em plena igreja, vem à tona com nitidez, por exemplo, na obra de S. Leonardo de Porto Maurício, em trechos nos quais se pede ao leitor para “fechar o livrinho” e refletir intimamente por algum tempo sobre os exercícios propostos (de amor a Deus, de contrição, etc.), para só então retomar o fio da leitura, sempre no rastro das ações e preces do sacerdote24. A matéria-prima desses “livrinhos”, por outra parte, consiste em uma série de “meditações”, “atos” e “orações” que neles se encadeiam de maneira a acompanhar a largos traços as cerimônias do altar. Assim, no Modo Perfeito de Ouvir Missa, o fiel é instruído a dizer em voz baixa, logo que ouvir as palavras Gloria in excelsis Deo: “glória vos seja dada, altíssimo Senhor e Deus eterno; todos os bem aventurados e anjos louvem e engrandeçam a vossa misericórdia”25. Já para os que se guiam pelo livro de frei Domingos Francisco de Moura, o momento em que o celebrante ergue o cálice após a consagração é a senha para dois atos sucessivos, um “exterior” e outro “interior”: “Cuidarei em ter particular devoção a este sagrado mistério da nossa redenção, obrado em benefício de todos os pecadores” é o que se lê no primeiro desses atos26. O segundo, escrito em tom mais emotivo, resume-se à seguinte súplica: “Meu Deus, permiti que o vosso sangue purifique as manchas de meu pecado, e imundo coração”27.
Outro aspecto que chama a atenção dos que examinam as obras em pauta é que, nelas, a busca da desejada sintonia entre os fiéis leitores e o sacerdote toma sobretudo a forma de uma pertinaz educação sentimental dos mesmos fiéis. Trata-se, assim, de um continuado esforço no sentido de despertar-lhes o fervor religioso, e ao mesmo tempo de orientar suas emoções nesse campo de acordo com o curso seguido pela celebração. Eis porque, em todos os três casos, seguem tais obras um roteiro mais ou menos uniforme, que tem início, a partir do começo da missa, com expressões de arrependimento e contrição; desenvolve-se com manifestações várias de louvor e de adoração a Deus, em uma espécie de reconciliação que coincide com a oração eucarística central do canon e que culmina, nas partes finais da liturgia, com o agradecimento à divina misericórdia e com a proclamação da conversão interior e de disposições como a de conservar para o futuro os frutos do sacrifício.
Ponto especialmente significativo desse percurso proposto aos leitores, a comunhão sacramental do sacerdote dá ensejo a que se convide os primeiros à prática da comunhão espiritual, exercício piedoso surgido na baixa Idade Média européia como um remédio ante a habitual distância entre o povo católico e a mesa eucarística28. São Porto Maurício e o autor anônimo do Modo Perfeito de Ouvir Missa dedicam particular atenção a esse exercício, consagrando-lhe um bom número de páginas. Nas palavras com que o santo italiano abastece o fiel desejoso de comungar por essa via, tem-se uma boa ilustração do referido empenho dos autores estudados em reger os afetos dos que assistem à missa:

E ao fim de avivardes a vossa devoção, imaginai que Maria Santíssima ou qualquer santo vosso advogado vos dá a sagrada partícula. Suponde que a recebeis, e abraçando Jesus no vosso coração, repeti muitas vezes com palavras interiores ditadas pelo amor: vinde, meu amado Jesus, vinde a este meu pobre coração; vinde, e saciai os meus desejos; vinde, dulcíssimo Jesus, vinde (grifos do autor)29.

Fonte perene de inspiração e de enlevo para os leitores, a pessoa de Cristo é também a destinatária, por excelência, dos afetos desses últimos. Na obra do mencionado autor anônimo, desenvolvida toda como um diálogo com o Salvador, recomenda-se dizer, logo que se inicia a missa: “aqui venho, Senhor, assistir a esse sacrifício do vosso corpo e sangue sacratíssimo; lançai-me, Senhor, a vossa benção”30. Já Porto Maurício põe francamente em marcha a concepção tradicional do santo sacrifício como representação da Paixão: “iremos para a igreja”, escreve ele, “como se fôssemos para o Calvário, com aquelas ditosas criaturas que, compassivas, acompanharam a Santa Virgem no dia em que nele morreu por nós o seu santíssimo Filho”31. Terminada a celebração, deve o fiel deixar o templo “tão penetrado de compaixão dos tormentos de Jesus Cristo e de dor dos seus próprios pecados” como se descesse do mesmo monte Calvário, “onde Jesus Cristo morreu para redimi-lo deles”32.
Finalmente, no Modo de Assistir ao Santo Sacrifício da Missa a idéia da presença do sacrifício da cruz na celebração eucarística cede espaço à interpretação alegórica de cada uma das passagens da liturgia, permitindo aos seus leitores acompanhar com o pensamento, durante a mesma celebração, os principais lances da existência terrena de Jesus. Assim é que, à vista do cálice coberto com a pala, o autor desta obra ensina aos ditos leitores a meditarem sobre “a cruel coroa de espinhos que puseram na cabeça de nosso Redentor”33; por sua vez, as cruzes feitas no ar sobre o cálice deviam levar à visão da “chegada de Cristo nosso bem ao Calvário, onde é pregado na cruz com rigorosos e cruéis cravos”34; já a comunhão do sacerdote “representa como, depois de morto, o nosso Redentor foi sepultado”35.
Comprova-se, portanto, nesse último livro, a longevidade da leitura alegórica das cerimônias da missa, na verdade a transposição de uma abordagem antes reservada apenas aos estudos das sagradas escrituras, inaugurada na alta Idade Média pelo sacerdote gaulês Amalário de Metz, falecido no distante ano de 83736. Uma leitura que, embora especialmente inventiva e capaz de arrebatar os fiéis ao colocá-los frente a frente com o drama da Paixão, pode ser entendida como a contrapartida mais perfeita das crônicas dificuldades de compreensão suscitadas, também em nossa época, pela assistência à missa, as quais tornavam necessário fazê-la falar artificialmente “desde fora”, por assim dizer, a partir de significados emprestados da analogia entre os dois sacrifícios, o da cruz e o do altar37. Eis como, portanto, sob a torrente de imagens e metáforas baseadas na referida analogia, é ainda o velho silêncio da liturgia que se faz ouvir.

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Sergio Chahon
Editor de História