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Ágora
A Ascensão do Nazismo
O presente artigo é um resumo da minha monografia de final de curso, apresentada ao Programa de Pós Graduação Lato Sensu em “História do Século XX” pela Universidade Cândido Mendes. A monografia foi orientada pelo Professor Doutor Daniel Aarão Reis Filho. Tem como objetivo analisar os fatores que levaram à ascensão do nazismo na Alemanha na primeira metade do século XX.
Palavras-chave: Nazismo, Alemanha, República de Weimar.

Os conflitos políticos e traumas diversos não resolvidos com o término da Grande Guerra acabaram por criar espaço para a ascensão do nazismo. Quando surgiu, este movimento com sua ideologia era inexpressivo, mas acabou dominando totalmente a Alemanha, reerguendo-a das cinzas e, também, conseguiu penetrar nas mentes das pessoas tornando-se idolatrado por todos. O programa nazista apelou através do nacionalismo frenético pela honra maculada, a humilhação sofrida em vinte e oito de junho de 1919 com o “diktat de Versalhes” e por sua ratificação com a assinatura do “Pacto de Locarno”, em outubro de 1925.
A partir daí o “colosso anômalo” foi crescendo, se enraizando nas camadas populares e atingiu a maturidade com toda a plenitude de poder. Inúmeros raciocínios, teorias e teses tentam explicar esse fenômeno, mas a certeza é uma só, ou seja, depois do nazismo o mundo nunca mais foi o mesmo. Ler sobre o nacional-socialismo para entender suas conseqüências jamais formará uma conclusão concreta, pois a historiografia depende da interpretação de textos tão heterogêneos, como aqueles produzidos pelos alemães, russos, americanos, britânicos, franceses, judeus, liberais e conservadores. O trabalho aqui apresentado é uma ínfima e humilde dissertação sobre este tema tão apaixonante, alicerçada nas obras já publicadas.
De 1945 para cá foram escritas inúmeras obras bibliográficas sobre Hitler, além de vários outros livros sobre a Segunda Guerra e o Terceiro Reich. O que acontece quando tantas pessoas enfocam um mesmo tema, centralizando um único personagem? Perigosamente, o retrato cumulativo que daí emerge pode sugerir a criação de um anti-herói mítico cujos crimes e ações catastróficas se evaporam por trás de uma cortina de poder, força e conquista. Talvez a atenção não devesse ser centrada no líder alemão e sim no fenômeno da ascensão do nazismo. Compreendê-lo é de vital importância para a vida política cotidiana, onde eloqüentes oradores têm a “chave” para abrir um futuro melhor, com promessas e propostas utópicas.
Com o armistício assinado pondo fim a Primeira Guerra Mundial, foi estabelecido que um tratado regularia o pós-guerra. A Alemanha e seus aliados não participaram desse “acordo”, apenas sendo intimados a enviarem seus representantes para tomarem ciência das deliberações nele contidas. A delegação alemã foi tratada como prisioneira de guerra e, em 7 de maio de 1919, seu representante o conde von Brockdorff-Rantzan, ministro do Exterior, leu os itens e disse serem demasiadamente duros para seu país. Foi dado um prazo de três semanas para ser assinado, mas este teve de ser prorrogado em razão dos alemães procrastinarem a decisão de assinar. Os aliados vencedores fizeram alguns retoques nos termos do documento e notificaram aos vencidos que o mesmo deveria ser assinado imediatamente, sob pena das tropas aliadas invadirem a Alemanha. No dia 28 de junho de 1919, foi assinado por ambas as partes o Tratado de Versalhes, no salão dos Espelhos do Palácio de Versalhes.
O Tratado de Versalhes foi imposto à Alemanha constituindo um verdadeiro “diktat”1, subtraindo partes de seu território e de sua população, mutilando suas forças armadas e extinguindo suas colônias. Assim, os alemães passaram a ter um violento ódio revanchista dos países vencedores aliados, especialmente à França. Mesmo com o esfacelamento do Império Austro-Húngaro e o desaparecimento do Império Turco-Otomano, a Alemanha continuou existindo. Embora as cláusulas desse tratado tenham sido muito severas, elas só poderiam ser efetivadas com o apoio do novo governo alemão que, na prática, estava interessado em anular suas disposições, boicotando as determinações nelas inseridas. Com todo o rigor imposto, os países vencedores deixaram que a Alemanha mantivesse o status de um país independente e normal, possibilitando que ela pudesse evitar o seu desarmamento e o pagamento das reparações de guerra. A retaliação aplicada nesse tratado não foi estrategicamente bem posicionada, porque jamais deveria ser sobre um país unido e, por decorrência disso, capaz de articular uma revanche. Um fator que muito contribuiu para a Alemanha levar avante os seus propósitos revanchistas foi o fato dos Estados Unidos se desinteressarem pela política européia.
O Tratado de Versalhes foi o grande responsável pelo crescimento da extrema direita radical na Alemanha e o economista Keynes2, em um texto seu, deixou patente sua certeza que num período de vinte anos haveria outra guerra devido às cláusulas constitutivas do tratado.
Ao término da Primeira Guerra Mundial os alemães estavam desnorteados e, assustados com a perspectiva de eclodir uma revolução, estabeleceram um regime republicano. Da sacada da chancelaria, Philipp Scheidemann, deputado do Partido Social-Democrata Alemão 3, proclamou a formação da República Alemã de Weimar, centro da Alemanha Kantiana, ou seja, uma outra corrente diferente da Alemanha Bismarkiana (militarista). Nesta cidade foi elaborada uma Constituição, em 1919, que englobava os princípios liberais e democráticos. Para a nova bandeira da república foram escolhidas as cores de 1848, ou seja, dourado, preto e vermelho, simbolizando o triunfo dos princípios liberais. A escolha desta cidade deveu-se ao fato de possuir toda uma atmosfera liberal, tendo sido berço de ilustres pensadores e filósofos, bem como, seria um local mais tranqüilo, pois Berlim estava sacudida por greves e badernas (Berlim continuou a ser a capital do país durante toda a era da República de Weimar). A democracia foi implantada na Alemanha através de uma guerra que foi perdida, mas não destruiu as forças antidemocráticas. No momento, o pêndulo político deslocara-se para a esquerda, porém as forças democráticas estavam divididas e teriam de enfrentar uma tarefa quase impossível. O imperialismo alemão fora enfraquecido, contudo não estava destruído.
Os pensadores alemães exaltavam a idéia de liberdade moral como muito superior à definição francesa de liberdade em termos meramente políticos. A idéia alemã de liberdade era a de se livrar das fraquezas da origem animal e materialistas da natureza humana, enquanto que os franceses apenas procuravam conquistar a liberdade do estado opressivo. A era de Schiller, Kant, Hegel e Goethe foi à fase do idealismo alemão e deu à Alemanha não apenas uma herança de louros na literatura e filosofia, mas também um legado de atitudes políticas contidas, refletindo tanto o descontentamento com a absurda realidade social e política do país quanto à impotência em fazer qualquer coisa a respeito para suplantar esse quadro. Tanto o idealismo quanto o nacionalismo alemães celebravam a coragem e o sacrifício pessoal. Essa visão idealista englobava um forte sentimento anti-semita, tendo herdado o antigo preconceito de que o judaísmo era uma religião materialista e os judeus, um povo materialista. Segundo eles, os judeus teriam rejeitado o caminho cristão para a salvação, preferindo ficarem livres para buscar os ganhos materiais a fim de saciarem seus objetivos egoístas. Dessa forma, os judeus passaram a ser culpados pela ascensão das doutrinas materialistas do liberalismo e do socialismo, pois esses sistemas permitiriam a eles conquistarem o poder econômico e político. Os judeus liberais pareciam ameaçar tanto a religião quanto à nacionalidade, os dois princípios em que se baseava a ordem social alemã. O anti-semitismo era politicamente útil aos conservadores, porque possibilitavam-nos atribuir desenvolvimentos sociais naturais, como o crescimento dos movimentos liberal e trabalhista, a uma conspiração judaica. Também, o anti-semitismo demonstrou ser uma maneira efetiva de desviar o descontentamento econômico do sistema capitalista, atribuindo tudo aos judeus, que foram responsabilizados pelas oscilações econômicas e crises cíclicas do final do século XIX.
Na Alemanha, a queda da monarquia levou ao poder os democratas sociais do SPD, o maior partido de oposição da era imperial. Um dia antes da assinatura do armistício para o fim da Grande Guerra, foi firmado um acordo entre o chefe temporário do novo governo, Friedrich Ebert (1871-1925) e o general Wilhelm Groener (1867-1939), que substituíra Ludendorff como chefe do Estado-Maior do Exército. O “pacto Ebert-Groener” ajudou a garantir que a transição para a democracia não acabaria com a independência do exército, nem com o poder tradicional das elites. Este pacto ajudou a manter a posição privilegiada do exército, existindo virtualmente como um “Estado autônomo dentro do Estado”. Os historiadores, de forma apropriada, descreveram o regime de Weimar como “uma república sem republicanos”. Muitos dos seguidores do monarquismo passaram a apoiar a república por uma questão de prudência, a fim de evitar a intervenção dos aliados em seu país. As reformas sociais foram tímidas, o que levou a extrema esquerda também a criticar a república liberal.
A Revolução Russa de 1917 muito influenciou os alemães, pois o medo da revolução social e do comunismo aumentava a atração do fascismo para a classe média. Um grupo de marxistas extremados, fortemente influenciados pelo acontecimento na Rússia, tentou formar um governo baseado em um conselho de trabalhadores, embora sem a ditadura partidária dos comunistas. Autodenominaram-se espartacistas (ou sparticistas), nome oriundo do líder Spartacus, chefe de uma revolta de escravos contra o antigo Império Romano. A Liga Spartacus era liderada por Rosa Luxemburgo (1870-1919) e Karl Liebknecht (1871-1919), que eram políticos hábeis e em janeiro de 1919 tentaram promover um levante na cidade de Berlim objetivando a implantação da revolução proletária. Quando ambos estavam aprisionados durante a guerra, criaram o Partido Comunista Alemão 4, em 30 de dezembro de 1918. Apesar da ajuda dos bolcheviques russos, a rebelião foi esmagada e os dois líderes presos, sendo executados por soldados enquanto eram levados à prisão. O governo do presidente Ebert reprimiu o levante atuando preventivamente contra outros possíveis intentos da mesma espécie, tendo usado para isso pelotões particulares armados, chefiados por ex-oficiais do exército, denominados de “freikorps”5. Essas unidades não simpatizavam com o socialismo democrático e nem com o comunismo russo e, mais tarde, seu descontentamento se voltaria contra o governo que ajudaram, evoluindo para tropas de choque da contra-revolução e da vanguarda do nazismo. Para os membros dos “freikorps” a guerra ainda não estava terminada, sendo o inimigo da frente de batalha apenas trocado por inimigos internos.
Em fevereiro de 1919, uma Assembléia Nacional Constituinte se reuniu na cidade de Weimar para votar a nova Constituição da Alemanha. A “Carta Magna” foi concluída em junho de 1919, instituindo um autêntico governo parlamentar. O chefe do governo seria um chanceler, muito mais poderoso do que o presidente que atuaria apenas como chefe de Estado. O chanceler era o responsável pelos atos do governo perante o “Reichstag” e tinha de manter uma maioria parlamentar para permanecer no cargo. Porém, surpreendentemente, o artigo quarenta e oito dava ao presidente a autoridade para governar por decreto no caso de estabelecimento de uma crise que ameaçasse a integridade da República. Este artigo foi idealizado com a finalidade de estabelecer uma proteção eficaz em situações emergenciais, mas acabaria por se tornar, após 1930, uma maneira de destruir o processo parlamentar. O caráter liberal contido em suas linhas fez com que a Constituição fosse inaceitável para as elites, que lamentavam o fim da autoridade monárquica.
O sentimento de humilhação oriundo da derrota na guerra era uma tônica constante no cotidiano do período de Weimar. Entre 1871 e 1914 a Alemanha ascendera às alturas do prestígio político e cultural. Suas universidades, sua ciência, sua música, sua cultura e sua filosofia não eram somente conhecidas, mas admiradas em todo o mundo. Havia ultrapassado a Inglaterra e os Estados Unidos em vários setores da produção industrial, atingindo enorme prosperidade. Então, em 1918, um golpe esmagador a colocou de joelhos ante os inimigos, extrapolando a compreensão de seu povo, que não podia acreditar como seus invencíveis soldados tivessem fracassado no campo de batalha. Todos os seus inimigos acusavam o país de ser o culpado pelo conflito que havia matado tantas pessoas. Para tentar reverter essa concepção, o governo de Weimar patrocinou uma comissão para provar que a Alemanha não era responsável pela provocação da guerra. A maioria do povo alemão achava que os aliados haviam ganhado a guerra não nos campos de batalha, e sim em cima de uma mesa escrevendo o “Tratado de Versalhes”. Era voz corrente entre o povo alemão que a humilhação alemã fora causada por traidores – membros da esquerda e judeus. Uma suposta conspiração de socialistas e judeus minara a moral na frente interna, apunhalando o bravo exército alemão pelas costas – “Mito da Punhalada nas Costas”. Esta acusação ajudava a mitigar o orgulho ferido dos patriotas alemães, que culpavam o regime republicano, também, por ser irresponsável, fraco e condescendente. Desenvolveu-se, aos poucos, uma idéia na qual o país precisava de uma liderança forte para recuperar o respeito do mundo.
A Alemanha enfrentou uma forte crise econômica no período de 1919 a 1921, com uma hiperinflação galopante e desemprego maciço. Para tentar minimizar a crise o governo aumentou a oferta de papel-moeda, a fim de financiar programas de seguro-desemprego e tentar proporcionar a seus cidadãos os recursos econômicos para os seus sustentos, gerando com isso uma tremenda inflação. Esse quadro sombrio foi muito desmoralizante para a classe média onde os salários não conseguiam acompanhar o célere aumento do custo de vida. Aqueles que viviam de rendas fixas, como os aposentados, pensionistas, possuidores de ações e proprietários de imóveis, sentiam que sua segurança estava em grave risco e, com isso, perdiam a fé na República.
Em uma análise mais apurada, pode-se ver que essa crise não chegou subitamente, pois deriva de uma lenta degradação desde 1914. Os depósitos bancários que chegavam a quatro bilhões de marcos em 1913 favoreciam aos poupadores e estimulavam o investimento.
O Estado foi obrigado a endividar-se com a guerra e, em 1918, o marco perdera quarenta por cento de seu valor. A vida cotidiana vai se desorganizando, porque nenhuma coletividade resiste por muito tempo a uma inflação severa. Faltava quase tudo, do carvão para aquecimento ao pão que servia para matar a fome. O marco continuava a ser desvalorizado e, para melhor entendimento, temos a relação dólar-marco: em 2/11/1922 um dólar valia 9.000 marcos; em março de 1923 - 22.000 marcos; em abril de 1923 - 40.000 marcos; em agosto de 1923 – um milhão; em 1º de novembro de 1923 – um bilhão de marcos. Também o desemprego galgou patamares inimagináveis. Com o retorno dos soldados da frente de combate houve muita procura de empregos, mas a oferta era bem menor. Temos alguns números relativos ao número de desempregados: em 1920 cerca de 2 e 6% da população ativa; em 1921 - 1,2 e 4,7%; em 1922 - 3%; em 1923 - 25%; em 1924 – 27%. Dessa forma, através de um sistema de cotizações impostas aos empregadores, um serviço de assistência aos desempregados foi organizado e as municipalidades eram incumbidas de fazê-lo funcionar. Devido à desvalorização do marco a Alemanha havia se tornado um paraíso para os estrangeiros, que viajavam para lá para gozar férias. Em 1922, trezentos mil americanos visitaram o país; suíços, holandeses também usufruíram dessa situação. Esse quadro fez crescer na população um forte sentimento de xenofobia, porque os estrangeiros eram acusados de estarem despojando a Alemanha. Os alemães se tornaram separatistas e demonstravam o ostracismo até nos preços dos produtos, tendo um preço para os nativos e outro, bem mais caro, para os de fora. Devido às intempéries financeiras que passavam os alemães, a partir de 1925, foi se formando a base social do nazismo com os comerciantes, artesãos, membros das profissões liberais e os devidamente empregados.
Em março de 1920, as mesmas unidades do “freikorps” usadas para reprimir a revolta comunista desfecharam um ataque contra o governo. A finalidade imediata era revogar a determinação governamental para desmobilizar determinadas unidades do “freikorps”, de acordo com os dispositivos do Tratado de Versalhes. Contudo, a macro-intenção era derrubar o regime republicano e instituir outro de caráter autoritário. Esse episódio (golpe) ficou conhecido como o “Putsch de Kapp”, liderado por Wolfgang Kapp (1858-1922), que era um funcionário público prussiano e ex-líder do Partido da Pátria (criado durante a guerra), e o general Walther von Lüttwitz (1859-1942), comandante das unidades do “freikorps” de Berlim. Muito embora a tentativa de golpe tivesse recebido apoio de setores industriais e agrícolas, o “putsch” fracassou, tendo durado apenas quatro dias, devido à inépcia política de seus líderes e de uma oposição conjunta dos trabalhadores. Nem Kapp ou Lüttwitz foram punidos pelo ato rebelde. Mesmo com os acontecimentos, o governo foi obrigado depois a recorrer aos “freikorps” para reprimir um levante de operários industriais na região do Ruhr.
Em fevereiro-março de 1921, a Conferência de Londres estabeleceu que a reparação de guerra a ser paga pela Alemanha seria de cento e trinta e dois bilhões de marcos (cerca de trinta e dois bilhões de dólares, pelo câmbio do dólar na época). O governo de Weimar concordou formalmente em pagar, mas não havia uma política fundamental para efetuar o pagamento. Pairava sobre a Alemanha o temor de que a qualquer momento eclodiria uma revolução social e o país lutava para conter a rigorosa inflação. Em janeiro de 1923, o problema se agravou com as tropas francesas e belgas invadindo e ocupando o Ruhr, com o propósito de obrigar os alemães a pagarem. A atitude francesa foi estimulada quando se tornou público os itens do Tratado de Rapallo, em abril de 1922, formulado entre a Alemanha e Rússia, onde ambas concordaram em manter relações diplomáticas e promover a cooperação econômica. A França tomou essa atitude sem o respaldo da Inglaterra, que desconfiava estarem os líderes franceses querendo manter um controle permanente sobre os alemães. O governo de Weimar conclamou o povo alemão a proceder uma resistência passiva contra as forças francesa de ocupação. Os ferroviários e os demais empregados do governo foram instruídos a pararem de trabalhar, tendo o tesouro alemão de emitir grandes quantidades de papel-moeda para financiar essa operação, o que resultou em uma fantástica inflação. Só para ilustrar esse quadro de calamidade, no auge da inflação, era preciso um carrinho de mão para transportar as notas necessárias para uma simples compra de pão. Em 26 de setembro de 1923, o novo chanceler alemão, Gustav Stresemann (1878-1929), determinou a suspensão da resistência passiva, por estar a economia arrasada e a autoridade do governo em perigo. A ação do chanceler no Ruhr levou a direita radical a enfatizar seus discursos no sentido de mudar a forma de governo. O “Putsch da Cervejaria” (será mencionado posteriormente), em novembro de 1923, exteriorizou e materializou a revolta daqueles que eram contrários ao regime republicano.
No período pós-guerra o capitalismo europeu iniciou um processo de declínio contrastando com a ascensão dos Estados Unidos e do Japão. Essa pequena crise de reconversão atingiu os países capitalistas europeus, porque perderam seus tradicionais mercados consumidores. O período que se seguiu a essa pequena crise foi de prosperidade, com os países europeus voltando a organizarem e desenvolverem suas estruturas produtivas. Para isso, adotaram uma série de medidas protecionistas, acabando por reduzirem as importações de produtos americanos e atualizando rapidamente seus métodos industriais. Os norte-americanos continuavam a aumentar o ritmo de sua produção industrial e agrícola. Assim, estava configurada uma conjuntura econômica de superprodução capitalista.
A crise de superprodução atingiu o seu ápice no dia 24 de outubro de 1929, chamado de “Quinta-feira Negra” ou “Crack da Bolsa de Nova York”, pois essa era a bolsa de valores onde se negociavam as ações das grandes companhias, com a maioria sendo de capital aberto, ou seja, suas ações pertenciam a várias pessoas. Em razão da produção industrial ter excedido o consumo, as indústrias diminuíram o ritmo de produção e geraram grandes massas de desempregados e, com isso, menos consumo. A crítica situação dessas companhias fez baixar tanto o valor real quanto o valor especulativo das ações, perdendo quase todo o seu valor financeiro, tendo como resultado a falência de inúmeras empresas e bancos. Milhares de pessoas perderam todo o seu capital.
O preço das matérias-primas e dos produtos agrícolas também baixou, causando um excesso de produtos no mercado, sem ter quem os pudesse comprar. A crise norte-americana arrastou consigo os países ligados à sua economia, com enorme amplitude e universalização. Não podendo vender, os Estados Unidos também deixaram de comprar. O período de 1929 a 1939 ficou conhecido como a “Grande Depressão”. Na Europa, a retirada brusca de capitais norte-americanos provocou a imediata falência de grandes bancos e várias indústrias. Em todo o mundo aumentou o número de pessoas desempregadas, sendo os países altamente industrializados os mais afetados. No plano político, as conseqüências também foram sentidas, pois o desemprego generalizado agitava as sociedades e, por toda a parte, surgiram manifestações contra os governos e os movimentos políticos, com apoio popular, propunham soluções radicais. O socialismo ganhou espaço, bem como os fascismos e os grupos antiliberais e antidemocráticos, pregando a implantação de governos ditatoriais para reprimir as agitações.
Em toda a História do capitalismo a “Grande Depressão” foi, sem nenhuma dúvida, sua maior crise. Ela acelerou a queda da República de Weimar e possibilitou a ascensão do nazismo, porque minou os alicerces de sustentação econômica do governo. A crise afetou muito os Estados Unidos, mas a Alemanha ficou profundamente afetada, quase arrasada. Em abril de 1924, foi instituído o Plano Dawes (denominação em homenagem ao banqueiro que liderou a comissão de especialistas), onde um empréstimo americano-britânico injetou milhões de dólares para a Alemanha poder retornar ao padrão-ouro, instituindo a base para o crescimento econômico e prosperidade, porque uma economia estável nesse país era vital para os interesses comerciais dos Estados Unidos e da Inglaterra. Já em 1929, um novo plano econômico foi delimitado para substituir o Plano Dawes. Um grupo de especialistas em economia, sob a presidência do americano Owen Young articulou o Plano Young, devendo ser implantado em maio de 1930, o qual reduziria a dívida alemã a 10%. Com a crise econômica ocorrida nos Estados Unidos, a situação voltou a se complicar de maneira muito mais grave para a Alemanha. Os empréstimos americanos não foram renovados e o pagamento dos anteriores estava sendo cobrado. Todo o capital estrangeiro foi sendo retirado, bem como o capital privado alemão entrou num processo de êxodo. Dessa forma, o sistema financeiro ficou paralisado e a economia entrou em colapso; sobreveio o desemprego, a inflação, a desvalorização do marco e o aumento da criminalidade. A “Grande Depressão” proporcionaria oportunidade para a reversão a um regime autoritário e, ao minar as fundações econômicas da estabilidade da república, criou as condições necessárias para que os inimigos da democracia pudessem reverter o sistema de governo. Ela acabou com qualquer confiança no liberalismo econômico e político que ainda pudesse existir entre os alemães de classe média; serviu também para polarizar o eleitorado, pois apenas medidas radicais seriam viáveis para contornar a crise. Na Alemanha o governo de Heinrich Brüning (1885-1970) cortou salários e benefícios dos funcionários públicos, num esforço desmedido para equilibrar o orçamento; ele esperava usar a crise internacional para obter uma redução adicional nos pagamentos das reparações de guerra.
A crise produziu um severo impacto na Alemanha, uma vez que poucos países no mundo sentiram tanto os seus efeitos. Os agricultores viram-se desesperados com a derrocada dos preços dos seus produtos, estando sua carga de impostos e dívidas crescendo assustadoramente. Os estudantes universitários não conseguiam vislumbrar vantagem em conseguir um diploma que os habilitasse a exercer profissões já saturadas. A tão sofrida classe média assistia, sem nada poder fazer, as suas poupanças desaparecerem, enquanto que seis milhões de trabalhadores desempregados sofriam nas ruas da amargura. Nesse quadro negro e sombrio, apenas um foco de luz surgia... o nazismo !!!
A Alemanha estava convulsionada pela crise econômica e era uma presa fácil para doutrinas e ideologias que apontassem alguma solução. A crise de 1929 foi basicamente norte-americana, mas acabou atingindo vários países do globo, sendo a Alemanha bastante atingida, pois tinha o fulcro de sua economia nos empréstimos dos Estados Unidos. Depois do “crack” da bolsa de valores de Nova York, os investidores retiraram dos bancos alemães grande parte do capital que ainda lhes restava. Assim, o país voltou a se desorganizar, o sistema financeiro ficou paralisado e a miséria retornou para o cotidiano dos alemães.
O aspecto contraditório da situação da economia alemã no pequeno período de catorze anos merece destaque, porque até 1924 o quadro é instável, com inflação e o aumento do desemprego. Depois, com a ajuda americana de cento e dez milhões de dólares, houve um aumento de produção e uma maior oferta de empregos. No final de 1929, com a Grande Depressão, toda a emergente prosperidade desabou e, novamente sobreveio o desemprego e a fome, chegando ao patamar de 44% da população ativa estar sem meios de subsistência em 1932. Ela acabou com o crescimento econômico e a prosperidade do final da década de 1920, que em 1928 haviam elevado o padrão de vida para o mesmo patamar anterior à Primeira Guerra Mundial.
A mais contundente e grave crise do capitalismo industrial foi a de 1929, que precipitou a derrocada da República de Weimar e abriu caminho para a ascensão definitiva e triunfo do nazismo. A convulsão econômica obviamente não criou os nazistas e nem as dificuldades econômicas por si só podem explicar seu importante aumento de popularidade. Porém, ao minar as fundações econômicas da estabilidade da República de Weimar, a crise gerou as condições básicas para os inimigos da democracia destruírem a ordem institucional vigente.
No final de março de 1930, foi eleito para o cargo de chanceler o líder do Partido do Centro Católico6, Heinrich Brüning, em substituição ao democrata social Hermann Müller (1876-1931). O partido do novo chanceler era tradicionalista e voltado para a defesa do catolicismo, sendo oponente do sistema republicano vigente e sua designação assinalou um estágio importante no declínio da democracia parlamentar. O objetivo principal do novo mandatário era restaurar a Alemanha como potência dominante na Europa, partilhando este desejo com o presidente Hindenburg, e os principais líderes militares, industriais e agrários. Ele convocou uma eleição extraordinária para o “Reichstag” , em setembro de 1930, dois anos antes da eleição normal, com a finalidade de conseguir maioria para aprovar suas medidas de governo. Contudo, o numeroso eleitorado de seu partido havia se tornado sensível à oratória dos nazistas e estes emergiram nas eleições como os mais votados, aumentando sua representação parlamentar de doze para cento e sete representantes. Os nazistas tornaram-se o segundo maior partido no parlamento.
A convulsão econômica foi se agravando e em 1932, os desempregados chegam ao patamar de seis milhões, ou seja, quase um terço do total de trabalhadores. O panorama social delineava-se mostrando a grande dificuldade, ou até mesmo a impossibilidade, do governo conseguir suplantar o quadro instalado, demonstrando também a perda relativa do papel político dos sindicatos e da dificuldade das esquerdas em enfrentar o crescente avanço nazista. Este progresso não resultou unicamente da desunião das esquerdas, mas sim na força do movimento progressivo dos nazistas, alicerçados pela sua grande organização e na eficaz propaganda, sendo estas inegavelmente mais fortes do que a oposição de seus adversários. A crise havia se tornado terrível e pode-se dizer, sem medo de errar, que ela foi a grande impulsionadora do crescimento do nazismo.
O grande sucesso eleitoral dos nazistas teve sua semente lançada durante os anos vinte (século XX). Durante esse período, as condições adversas na Alemanha propiciaram a pregação e a aceitação de seus ideais. A organização aliada à propaganda muito bem elaborada, acrescidas do carisma e da oratória de Adolf Hitler, também foram elementos decisivos para o crescimento do partido.
O termo “nazi”, ou nazista, é formado pelas duas primeiras sílabas de “nationatsozialistische” (nacional-socialista), conforme a pronúncia em alemão. Foi usado inicialmente de um modo meio depreciativo por oponentes desta corrente partidária.
Ao final da Primeira Guerra Mundial, Hitler retornou a Munique e tudo aquilo pelo qual ele e seus companheiros haviam lutado parecia ter sido perdido em decorrência do que considerava como a covardia dos políticos liberais. Não ingressou nos “freikorps”, mas em setembro de 1919, filiou-se ao Partido dos Trabalhadores Alemães, fundado em janeiro deste mesmo ano, sendo um dos muitos grupos fundados no período posterior à guerra, a fim de atrair trabalhadores para a causa nacionalista. Adolf foi o qüinquagésimo quinto membro. O exército encorajava as atividades desses grupos, a fim de combater o perigo do socialismo. Em fevereiro de 1920, este partido trocou de nome para Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães7. Pouco tempo depois, em julho de 1921, Hitler tornou-se chefe absoluto do partido. Hitler foi instrutor político do exército, tendo recebido intenso treinamento para desempenhar essa atividade, e acrescido da sua enorme capacidade de liderança permitiram-lhe atrair seguidores e aumentar a participação no partido. Ele aos trinta e quatro anos de idade era hábil orador e dominava um grande vocabulário, fazendo com que sua oratória fosse abrangente e contundente.
A tibieza do governo de Weimar em relação à ocupação francesa no Ruhr criou condições para que Hitler tentasse dar um golpe e assumir o governo. Junto com o general Ludendorff, herói de guerra, na noite de 8 de novembro de 1923, Hitler interrompeu uma concentração nacionalista, promovida pelo monarquista Gustav von Kahr (1862-1934), e proclamou a instituição de um governo nacional. Este episódio ficou conhecido como o “Putsch da Cervejaria” 8 e era inspirado na “Marcha sobre Roma”, que no ano anterior levou Benito Mussolini ao poder na Itália. Porém, o NSDAP ainda não atraía um número de seguidores suficientes para sustentar essa intentona. Muito embora, num primeiro instante, Kahr aceitou os argumentos dos insurretos, mas ele e outras autoridades mudaram de idéia sobre sua aliança com o jovem e impetuoso ex-cabo. Um grupo de nazistas revoltosos recusou-se a cumprir ordens da polícia para dispersar e, então, sobreveio um intenso tiroteio, resultando na morte de dezesseis nazistas e de três policiais do governo. Hitler e Ludendorff foram presos e no julgamento que se seguiu, os juízes permitiram que o líder nazista usasse o tribunal como um palanque para divulgar sua causa, apresentando-se como um patriota que tentava livrar seu país dos marxistas e dos traidores. Adolf foi condenado pelo seu ato de traição a uma pena de cinco anos, mas só ficou preso por oito meses. O general seu companheiro, por ter sido um herói de guerra, foi absolvido de todas as acusações. O tempo que ficou preso foi de grande valia para Hitler, porque pode refletir mais e traçar novas estratégias, tendo aproveitado o conforto da sua cela na fortaleza de Landsberg para ditar seu livro “Mein Kampf” (“Minha Luta”) para seu secretário particular, Rudolf Hess (1894-1983), que mais tarde se tornaria o vice-líder do Partido Nazista. Todo este episódio ensinou uma lição a Hitler, na qual não tentar tomar o poder outra vez sem ter certeza do apoio do exército, devendo seguir o curso legal e constitucional para chegar lá.
A estrutura política que facilitará a expansão do Partido Nazista foi consolidada no período de 1927-1928. Eles dividiram o território alemão em trinta e quatro distritos, chamados de “Gaue”, chefiados pelo “gauleiter”. Cada um deles subdividia-se distritos menores, os “Kreise”, administrados pelos “kreisleitern”. Estes eram formados por grupos locais, os “ortsgrupen”, que ainda se subdividiam em células de bairros e fábricas. Gregor Strasser dirigia uma ala do partido encarregada de oposição ao governo e, outra ala subdividia-se em diferentes seções, tais como agricultura, economia, raça e cultura, jurídica, e a de assistência aos trabalhadores. Desta ala se formariam os chefes do Estado Nazista. O partido era formado de diversas organizações divididas por idade, categorias socioprofissionais e sexo, a saber: -“Deutsches Jungvolk”, para meninos até doze anos de idade; -“Bund Deutsches Mädel”, para meninas; -“Hitlerjugend” (“Juventude Hitlerista”), para jovens de quinze a dezoito anos; -“N.S. Frauens-chaften”, para as mulheres; -“Kulturbund”, voltada para os intelectuais e artistas; - diversas outras organizações destinadas aos médicos, advogados, estudantes e outras categorias profissionais. Gradativamente, o número de militantes do NSDAP começa a aumentar e tornar o partido mais representativo e forte.
Nos governos fascistas, como o era o alemão, a informação fica totalmente vinculada ao Estado. Tudo que é noticiado tem que passar pela análise e aprovação dos órgãos fiscalizadores da mídia; isso se deu através de uma política de comunicação forte e agressiva. Mas, para que todo esse esquema funcionasse, era necessário um Estado forte e isso não existe sem que haja, também, o apoio popular. E, para que essa população apoiasse o regime nazista na Alemanha de Hitler, por exemplo, era necessário que o ditador alemão recuperasse a economia germânica tão abalada.
Os fascistas davam menor importância à palavra impressa; a divulgação, o melhor efeito e a melhor manipulação seriam mais eficazes pelo rádio, e, mais ainda pelo cinema e pelo aparecimento público ao vivo. Daí o fato do jornalismo durante o fascismo ser basicamente audiovisual ou só auditivo. Não importava tanto o texto, a idéia, mas a sua construção visual, o entretenimento. O jornalismo fascista invade, mesmo que seja com notícias e com política, essencialmente o âmbito do sistema imaginário, como os filmes em geral. Assim, na Alemanha procurou-se incentivar a distribuição de aparelhos de rádio e promover doações ou vendas a preços reduzidos. Tudo isso para proliferar ao máximo o rádio entre o povo alemão. O governo obrigou restaurantes, cafés e lugares públicos a possuir um aparelho de rádio. Foram fabricados seis milhões de unidades do receptor popular9. Através do rádio era divulgada a ideologia nazista, além de lemas e ordens do partido e músicas marciais. Tudo isso nos horários de trabalho para que o máximo de empregados pudesse ouvir.
Joseph Paul Goebbels foi o chefe da propaganda nazista e ministro do Terceiro Reich. Uma explicação para a propaganda nazista ter tido sucesso é a que ela expressava um consenso ideológico já consolidado de oposição ao marxismo, democracia, ao “diktat” de Versalhes, e aos judeus. Com o afastamento dos judeus muitos alemães aproveitaram as novas oportunidades, criadas pela eliminação da concorrência judaica na economia e nas atividades profissionais. Divulgar ao máximo os ideais do nazismo foi uma das principais estratégias de Hitler. Na sua obra “Mein Kampf” já havia sido abordada a eficácia da propaganda, que para ele deveria ser emotiva e popular. Desenvolveu uma oratória altamente eficiente, onde os gestos, a voz e o local deveriam ser preparados com cuidado para causar impacto na população. Pela sua compreensão, as massas eram incapazes de pensar profundamente e, por isso, um discurso deveria conter poucas idéias, ser curto para não cansar e ser maniqueísta, opondo o bem ao mal. Dessa maneira, não era necessários no curso de sua oratória estabelecer diferenças entre liberais, comunistas, social-democratas e socialistas, afirmando que todos eram inimigos da Alemanha e deveriam ser combatidos.
Dez anos transcorreram desde que Hitler tentou com um golpe se apoderar do governo, mas em 30 de janeiro de 1933 o então presidente da Alemanha, Paul von Hindenburg, nomeou-o chanceler. Esta designação coroou a estratégia de Adolf Hitler para alcançar o poder através de meios legais e eleitorais.
O desenvolvimento industrial e a tradição cultural dogmática da Alemanha, que levaram seus líderes a idéias ainda mais delirantes e megalomaníacas como: criar o III Reich, um império mundial, destinado a durar mil anos da "raça ariana", mistura confusa de uma noção cultural e lingüística, com uma noção propriamente biológica, o do grupo étnico-nórdico, que, no entanto, sempre abrangeu além dos escandinavos, apenas uma pequena parte da população alemã. À Itália e Alemanha, junta-se também o Japão, cujo regime aristocrático de estilo prussiano e militarista facilmente se adapta ao novo figurino fascista, adotando idéias imperialistas e racistas análogas.
O neonazismo é parte do que resta do Nazismo. Recebe o prefixo “neo” por que existem algumas diferenças básicas, caracterizadas principalmente pela não mais associação racial, visto que encontramos freqüentemente grupos neonazistas com pertencentes não mais a arianos, e que ocasionalmente incluem até mesmo pessoas de raça negra ou judaica que foram caçadas e exterminadas durante a Segunda Guerra. O neonazismo hoje não é mais centrado como o nazismo dos anos 40, mas se divide em grupos isolados por todo o mundo tomando idéias que variam entre eles, mas que em suma se baseiam nas doutrinas de Hitler, e principalmente em seu livro “Minha Luta”. Esquecido o ódio racial o que resta hoje é uma grande xenofobia (ódio, ou mais precisamente medo – fobia – a estrangeiros), ojeriza para com homossexuais e discriminações diversas.
O temor é maior na medida em que as utopias transformadoras têm sido varridas do mapa, depois de dominarem o debate ideológico na Europa e no mundo durante todo o século XX. Hoje o pensamento único ocupa todo espaço. Ao mesmo tempo, valores humanistas e libertários têm sido jogados no lixo em nome do progresso material, do consumo desmedido e do prazer artificial. O “ter” é mais importante do que o “ser”.
O passado parece ressurgir na medida em que não há futuro por conquistar e construir. Ao contrário. O que já fora enterrado apresenta-se como novo e salvador. A mercadoria em que tudo se transformou - dinheiro, valores e pessoas - acirra a contradição: é preciso salvar a cultura e os pretensos valores de um povo e de uma nação independentes, não globalizados. O nazismo nacionalista, depois que as barrigas estão cheias e os sonhos socialistas foram enterrados, volta a tornar-se resposta para os saciados e os não internacionalistas. A União Européia deverá ser palco de grandes disputas e, quem sabe, retrocessos na sua consolidação.
Até que ponto os neonazistas têm futuro? É difícil saber. Mas que provocam medo, ah! Quanto a isso, não temos dúvidas...

Bibliografia

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Odilson Cardoso da Silva
Editor de História