O presente estudo busca discutir alguns aspectos do turismo cultural e sua interação com a geografia, através de uma base composta por três elementos centrais: espaço, patrimônio e cultura.
Desta forma, procura-se verificar a contribuição da cultura e do patrimônio cultural enquanto agente da dinâmica de refuncionalização de espaços anteriormente desvalorizados. Por conseguinte, o artigo visa analisar a organização espacial interna da Área Central da Cidade do Rio de Janeiro em função da atuação do turismo cultural nesta área e da emergência de novos centros culturais, os quais atuam atendendo a demanda que se insere no contexto atual de consumo cultural.
Sendo assim, a Área Central da cidade do Rio de Janeiro apresenta-se como o recorte espacial proposto para esta pesquisa, em virtude de concentrar uma elevada porção do patrimônio histórico e artístico carioca, além da existência de expressivos centros culturais da Cidade Maravilhosa. O mapa abaixo indica a localização do recorte estudado, indicando os limites da área de estudo.

Fonte: Instituto Pereira Passos – IPP. Organizado por Colombiano, 2004.
Este estudo contempla o período que se estende desde a década de 80 do século XX ao início da primeira década do século XXI. Isto é justificado pela aprovação do projeto Corredor Cultural em 1984, o qual se impõe como uma das bases de uma nova política cultural para a Cidade do Rio de Janeiro, fundamentada em um processo de revitalização de formas pretéritas.
A metodologia está pautada na leitura de bibliografia especializada pertinente à temática a ser desenvolvida e ao recorte espacial indicado, permitindo o emprego de uma base conceitual que possa fundamentar as indagações concernentes ao objeto de estudo.
Neste sentido, os questionamentos consistem, sobretudo, nos seguintes aspectos: Quais as interfaces existentes entre turismo, espaço e cultura? Como a cultura e as políticas culturais atuam no processo de revitalização da Área Central da Cidade do Rio de Janeiro? Finalmente, como o turismo cultural influenciou a organização espacial e a formação de novos usos e territorialidades nas últimas décadas?
Isto posto, a pesquisa divide-se em três momentos: Considerações sobre Turismo Cultural; Espaço, Patrimônio e Cultura: Interfaces do Turismo Cultural; e Novas Dinâmicas na Organização da Área Central do Rio de Janeiro. O primeiro aborda assuntos concernentes à contextualização e à caracterização do turismo cultural, o segundo evidencia as interfaces existentes entre o objeto de estudo e o espaço, patrimônio e cultura, enquanto o último busca retratar o modo pelo qual o turismo cultural influenciou a organização espacial interna da capital fluminense nas últimas décadas.
Considerações sobre Turismo Cultural
O turismo enquanto atividade política, econômica e cultural tende a se destacar nos estudos científicos desenvolvidos nos centros acadêmicos nacionais e internacionais, uma vez que se verifica o aumento da atividade turística e seus impactos sócio-espaciais no ordenamento territorial. Desta forma, emerge a necessidade de análises interdisciplinares capazes de compor de forma integradora novas propostas nas áreas de diagnóstico, planejamento e gestão dos recursos naturais e culturais.
De fato, “a temática do turismo em geografia constitui uma de suas especialidades mais recentes, embora já se tornando importante a partir dos anos setenta, período em que o turismo de massa se consolida, tanto nos países centrais de capitalismo avançado como nos periféricos” (RODRIGUES, 1999: 158).
Considera-se de extrema importância metodológica para esta pesquisa uma definição oficial do fenômeno pela a OMT, Organização Mundial de Turismo (2000), a qual define Turismo como o “fenômeno que ocorre quando um ou mais indivíduos se transladam a um ou mais locais diferentes de sua residência habitual por um período maior que vinte e quatro horas e menor que cento e oitenta dias, sem participar dos mercados de trabalho e capital dos locais visitados” 2.
Partindo desta premissa, segundo as determinações da entidade mencionada, o visitante é denominado turista quando pernoita na localidade receptiva participando de atividades de turismo, recreio, esporte, saúde, motivos familiares, estudos, peregrinações religiosas ou negócios, mas sem propósito de imigração.
As definições oficiais supracitadas, embora não demonstrem toda complexidade sócio-econômica e espacial da atividade, foram adotadas pelo fato de facilitarem as análises dos fluxos turísticos e dos índices de demanda e de oferta (OMT, 2000).
Tal como foi evidenciado, a definição de um órgão oficial privilegia uma abordagem técnica. Contudo, a atividade turística não prescinde de definições que denotem seus aspectos qualitativos, tendo em vista que autores como Cooper3 a considera “multidimensional e multifacetada” devido a sua interface com o plano social. O turismo cultural está inserido, portanto, neste plano de análise, não sendo definido somente como uma de suas segmentações.
Cumpre mencionar que o turismo cultural enfoca a totalidade dos elementos culturais, não estando necessariamente situados no tempo. Ele “engloba todos os aspectos da viagem, pelos quais o turista conhece a vida e o pensamento da comunidade receptiva. Por isso o turismo apresenta-se como ferramenta importante para promover as relações culturais e a cooperação internacional 4”.
Notadamente, Turismo Cultural é definido segundo ICOMOS – Comitê Científico Internacional sobre Turismo Cultural – como a forma de turismo em que o principal objetivo é a descoberta de monumentos e sítios. Isto evidencia um efeito bastante positivo o que de fato contribui para satisfazer as próprias finalidades para a sua manutenção e proteção. Esta forma de turismo justifica, de fato, os esforços pelos quais afirma a demanda de manutenção e proteção da comunidade humana por causa dos benefícios sócio-econômicos que eles atribuíram a todas as populações.5
Face ao contexto de revalorização da cultura em escala mundial, o turismo urbano em seu viés cultural emerge como uma forte tendência na sociedade contemporânea. O interesse pelas cidades e pelo seu patrimônio histórico resgata a memória coletiva local sendo capaz de contribuir para o surgimento ou a consolidação da atividade turística em determinada localidade, alterando a dinâmica urbana e modificando sua organização espacial.
Deste modo, a cidade não é entendida como um simples aglomerado populacional dotado de infra-estrutura específica e aparato institucional, mas como “um constante mosaico de territorialidades impressas ao longo do processo histórico de formação. A coexistência de manifestações, documentos, agentes e processos, os mais díspares ou similares possíveis conferem à vida urbana diversidades, portanto, uma riqueza de possibilidades na oferta turística”.6
De fato, as territorialidades se expressam pelo “movimento de um agente titular no ato de presidir a lógica de distribuição de objetos sobre uma dada superfície e de, simultaneamente, controlar as dinâmicas que afetam as práticas sociais que aí terão lugar. (...) Finalmente a territorialidade é vista como um conjunto de estratégias, de ações, utilizadas para estabelecer poder, mantê-lo e reforçá-lo” (GOMES, 2002: 12).
Isto posto, segundo Lima (2003), existem alguns pressupostos para o estabelecimento do turismo cultural como o ordenamento do território, a proteção de sítios urbanos e políticas culturais que fomentem a atividade.
Diante desse contexto, o próximo item aborda as inter-relações estabelecidas entre turismo, espaço e cultura a partir do reconhecimento do patrimônio histórico como fator de convergência de fluxos e como atrativos para o turismo cultural.
Espaço, Patrimônio e Cultura: Interfaces do Turismo Cultural
Este item busca analisar as interfaces existentes entre os principais aspectos do turismo cultural à luz da geografia. A elucidação de tal problemática ocorre através de uma base composta por três elementos centrais: espaço, patrimônio e cultura.
Tendo em vista a capacidade de gerar fluxos intensos e promover interações no espaço, o turismo enquanto atividade econômica representa um agente ativo na organização do espaço geográfico. Sendo assim, torna-se fundamental a conceituação daquilo que se entende por espaço geográfico e sua relação com a atividade turística, à medida que a convergência dos fluxos turísticos atua na configuração espacial de determinada localidade.
Nestes termos, “o turismo na sua enorme complexidade reveste-se de tríplice aspecto com incidências territoriais específicas em cada um deles. Trata-se de um fenômeno que apresenta áreas de dispersão (emissoras), áreas de deslocamento e áreas de atração (receptoras). É nesta que se manifesta materialmente o espaço turístico ou se reformula os espaços anteriormente ocupados” (RODRIGUES, 1999: 43).
Neste sentido, Santos (2002: 61) concebe o espaço geográfico como um conjunto de fixos e fluxos. Os elementos fixos, fixados em cada lugar, permitem ações que modificam o próprio lugar, fluxos novos ou renovados que recriam as condições ambientais e as condições sociais e redefinem cada lugar. (...) Sendo assim, um fixo social corresponde à materialização dos anseios da sociedade no espaço, visto que “fixos e fluxos, interagindo, expressam a realidade geográfica e é desse modo que conjuntamente aparecem como objeto possível para a geografia”.
Ao aplicar os referidos conceitos ao turismo, nota-se que os fixos sociais, definidos por Santos anteriormente, podem representar as destinações propriamente ou ainda os atrativos turísticos em menor proporção, enquanto os fluxos expressam o cerne das interações sócio-espaciais, cuja dinâmica é representada, neste caso, pelos fluxos turísticos.
Segundo Corrêa (1997: 279 - 280), “as interações espaciais constituem um amplo e complexo conjunto de deslocamentos de pessoas, mercadorias, capital e informação sobre o espaço geográfico. Podem apresentar maior ou menor intensidade, variar segundo a freqüência de ocorrência e, conforme a distância e direção, caracterizar-se por diversos propósitos e se realizar através de diversos meios e velocidades. (...) No entanto, as interações espaciais devem ser vistas como parte integrante da existência (e reprodução) e do processo de transformação social e não como puros e simples deslocamentos de pessoas, mercadorias, capital e informação no espaço. No que se refere à existência e reprodução social, as interações espaciais refletem às diferenças de lugares face às necessidades historicamente identificadas. No que concerne às transformações, as interações espaciais caracterizam-se, preponderantemente, por uma assimetria, isto é, por relações que tendem a favorecer um lugar em detrimento do outro, ampliando às diferenças já existentes, isto é, transformando os lugares”.
Neste sentido, a afirmação de Edward Soja (1993: 73) “de que a organização do espaço era não apenas um produto social, mas, simultaneamente, repercutia na moldagem das relações sociais” contribui para a confirmação da dialética sócio-espacial.
De fato, Corrêa (1989: 11) corrobora com tal concepção à medida que acredita que o espaço urbano capitalista – fragmentado, articulado, reflexo, condicionante social, cheio de símbolos e campo de lutas – é um produto social, resultado de ações acumuladas através do tempo e engendradas por agentes que produzem e consomem o espaço.
Sendo assim, as manifestações sociais podem escrever sua trajetória ou serem lidas no espaço produzindo bens tangíveis e imateriais7. Tal amplitude designada ao patrimônio cultural conduz à expressão legado cultural, a qual é utilizada por Barreto (2000) em seus estudos.
Surge, então, a noção de patrimônio histórico, a qual Choay (2001: 11) vê como “expressão que designa um bem destinado ao uso fruto de uma comunidade que se ampliou a dimensões planetárias, constituído pela acumulação contínua de uma diversidade de objetos que se congregam por seu passado comum: obras e obras-primas das belas artes e artes aplicadas, trabalhos e produtos de todos os saberes e savoir-faire dos seres humanos”.
Com efeito, os bens materiais e imateriais, protegidos ou não pelo recurso do tombamento, são elementos presentes na organização espacial, sendo muitas vezes dotados de monumentalidade.
Na concepção de Lefebvre “em toda parte a monumentalidade se difunde, se irradia, se condensa, se concentra. Um monumento vai além de si próprio, de sua fachada, de seu espaço interno. À momumentalidade pertencem em geral, a altura e a profundidade, a amplitude de um espaço que ultrapassa seus limites materiais” (1999: 46).
Cabe ressaltar que esta noção coincide com o sentido original de monumento, que de acordo com Choay (2001) refere-se à manutenção da memória coletiva. Contudo, seu significado foi modificado com o decorrer do tempo, passando a designar magnífico, glorioso. Desta forma, a monumentalidade “expressa o fato de gravar no espaço a marca do poder e força da ideologia que guiava uma sociedade, notadamente de sua classe dominante, em suas diferentes temporalidades” (MACHADO, 2002: 37).
Logo, “o modo de ver o mundo, as apreciações de ordem moral e valorativa, os diferentes comportamentos sociais e mesmo as posturas corporais são assim produtos de uma herança cultural, ou seja, o resultado da operação de uma determinada cultura. (...) Assim, indivíduos de culturas diferentes podem ser facilmente identificados por uma série de características, tais como o modo de agir, vestir, caminhar, comer, sem mencionar a evidência das diferenças lingüísticas, o fato de mais imediata observação empírica” (LARAIA, 2003:68).
Segundo a Unesco, durante a Conferência Geral em Paris em 1989, a cultura tradicional e popular é representada por um conjunto de criações que emanam de uma comunidade cultural fundadas na tradição, expressas por um grupo ou por indivíduos, que reconhecidamente respondem às expectativas da comunidade enquanto expressão de sua identidade cultural e social. As normas e os valores se transmitem oralmente, por imitação ou de outras maneiras. Suas formas compreendem, entre outras, a língua, a literatura, a música, a dança, os jogos, a mitologia, os ritos, os costumes, o artesanato, a arquitetura e outras artes.
Neste âmbito, “a cultura que interessa aos geógrafos é, pois, primeiramente constituída pelo conjunto dos artefatos, do know-how e dos conhecimentos através dos quais os homens mediatizam suas relações com o meio natural” (CLAVAL, 1999: 12).
Por conseguinte, a cultura passou a ocupar uma posição mais destacada na organização das sociedades atuais, cuja cultura contemporânea pode ser caracterizada pela dissolução das fronteiras, não apenas entre cultura erudita e cultura popular, mas também entre as diferentes formas culturais tal como o turismo (Urry, 2001).
Em muitos casos, as políticas públicas urbanas8, caracterizadas enquanto estratégias de atuação das esferas estatais ou privadas, permitem a utilização de recursos e bens públicos a fim de transformar recursos culturais em recursos turísticos. “Faz parte das orientações relacionadas com o turismo urbano uma política deliberada de incremento das chamadas atrações culturais, tais como áreas históricas renovadas, grandes obras urbanísticas recentes, áreas comerciais de pedestres, obras de arte em espaços públicos, além de feiras e mercados” (SANCHEZ, 2003: 402).
O turismo cultural se apropria de singularidades inerentes a cada localidade com a finalidade de transformá-los em atrativos turísticos capazes de absorver uma quantidade significativa de turistas. Porém, a construção de um imaginário a partir da atuação da mídia representa um importante aspecto a ser considerado, em razão da sua utilização como veículo privilegiado do espaço e da venda das cidades.
Notadamente, o patrimônio material de cada cidade, valorizado como atrativo turístico pelas operadoras de viagens, propicia o fomento da prática do turismo histórico/ cultural e, conseqüentemente, a modificação na conjuntura local. Assim, a renovação urbana9 e a atividade turística são utilizadas como estratégias dos gestores das cidades para atrair investimentos de capitais. A valorização das áreas centrais surge como um ícone da atualidade, permitindo novamente a apropriação dessas áreas pelo capital.
Justamente por aglutinar intensos fluxos de naturezas distintas e perceber a possibilidade da ampliação dos lucros, os atores que participam direta ou indiretamente do ordenamento territorial se interessam em estimular investimentos que permitam reabilitação de áreas das cidades que apresentem representatividade histórico-cultural.
No contexto abordado, as estratégias de reinserção do capital nas áreas de obsolescência são percebidas por meio das intervenções urbanas. Estas entendidas aqui na concepção de Vaz (2001) enquanto conjunto de programas e projetos nas esferas pública ou privada que atuam sobre a malha urbana, visando a reestruturação ou revitalização funcional (atividades e redes de serviços); a reabilitação arquitetônica e a reapropriação social e cultural.
Nesta conjuntura, o processo de revitalização, entendendo-o como uma intervenção urbana que privilegia a recuperação dos elementos históricos, simbólicos, culturais e ecológicos do local, pressupõe a preservação a partir do patrimônio histórico cultural10. Nota-se, ainda, que o processo de revitalização dos centros urbanos em decadência contribui para a valorização de espaços em desuso perante o capital.
Desta maneira, “os programas de renovação urbana incluem a transformação de algumas áreas chamadas novas centralidades, fragmentos urbanos transformados em nós de atividades e fluxos – empresariais, comerciais e de serviços – somados aos espaços da chamada oferta cultural, museus e centros de lazer. Seu lócus são os tecidos urbanos sempre apresentados degradados, perigosos e desajustados quando confrontados aos valores dos atuais projetos de cidade. São áreas de antigas fábricas, frentes marítimas ou armazéns em velhas áreas portuárias, agora refuncionalizados e revitalizados para formar novos complexos de consumo em sintonia com os padrões culturais dominantes”11.
“Criou-se um mercado internacional de centros e bairros antigos. (...) Além disso, em vez de contribuir para preservar as diferenças locais e conter a banalização primária do meio onde se vive, a valorização dos centros antigos tende paradoxalmente a tornar-se instrumento de uma banalização secundária. Algumas cidades, assim como alguns bairros resistem a isso, ajudados por sua dimensão, sua morfologia, suas atividades, pela força de suas tradições, pela simples riqueza que possuem ou pela sabedoria de suas autoridades. Outras começam a se assemelhar tanto entre si que o turismo e empresas multinacionais nelas se sentem em casa” (CHOAY, 2001: 227).
Tendo em vista a inter-relação tecida entre as cidades e o turismo cultural, cabe compreender a influência promovida pela referida atividade na organização interna da cidade do Rio de Janeiro a partir do Projeto Corredor Cultural aprovado em 198412, o qual visava à proteção do sítio original da cidade, onde se encontra grande parte do valioso acervo histórico-arquitetônico da capital fluminense.
Novas Dinâmicas na Organização Espacial da Área Central da Cidade do Rio de Janeiro.
“A fisionomia das unidades urbanas reflete as formas diferentes as quais se processou a ocupação do solo urbano, refletindo também, épocas diversas em que essa ocupação se processou. (...) A fisionomia urbana do centro da cidade é inteiramente diferente da dos subúrbios e dos bairros e, dentro desses, é grande a variedade de aspectos”.13
A Área Central, em termos gerais, se caracteriza pela “concentração das principais atividades comerciais, de serviços, da gestão pública e privada e dos terminais de transportes intra-regionais e intra-urbanos. Ela se destaca na paisagem da cidade pela sua verticalização”.14
A partir desta breve conceituação teórica, percebe-se que a Área Central da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro apresenta tais características, e ainda outras peculiares ao referido espaço urbano. Isto posto, o núcleo central da capital fluminense delimita-se pelo eixo da avenida Rio Branco, e seus limites incluem, grosso modo: Praça Mauá, Rua Acre, Marechal Floriano, Av. Passos, Praça Tiradentes, Rua da Carioca, Rua Senador Dantas, Praça Mahatma Ghandi, Av. Presidente Wilson, Av.Presidente Antônio Carlos, Rua Primeiro de Março, Rua Dom Gerardo (DUARTE,1968: 73).
Portanto, ela apresenta elementos específicos na sua formação, resultando em uma fisionomia diferente em relação ao restante da cidade. Segundo Soares (1965), a singularidade da paisagem urbana carioca reside na conjugação da topografia da cidade – terrenos alagadiços circundados por morros e espremidos pelo mar –, da heterogeneidade arquitetônica, juntamente à intensidade de ocupação do solo urbano e, sobretudo, de sua diversidade de funções.
A Área Central da Cidade do Rio de Janeiro, de fato, se caracteriza pela multiplicidade de formas e funções e pelos processos que refletem e condicionam a formação de uma estrutura ímpar no espaço urbano carioca.
Com efeito, “a organização espacial acumula formas herdadas do passado. Elas tiveram uma gênese vinculada a outros propósitos e permaneceram no presente, porque puderam ser adaptadas às necessidades atuais, que mudaram substancialmente ao longo do tempo. As formas espaciais herdadas do passado e presentes na organização atual apresentam uma funcionalidade efetiva em termos econômicos ou um valor simbólico que justifica sua permanência” (CORRÊA, 2002: 71).
“Como em tantas outras cidades, os equipamentos culturais tendem a se concentrar no núcleo; e o Rio de Janeiro não foge à regra. No panorama carioca se observa uma forte concentração desses equipamentos em sua área central, algumas concentrações em bairros da classe média e uma enorme carência nos bairros populares, subúrbios e periferias. (...) Este olhar sobre a materialização dos edifícios culturais no espaço urbano reforça a distribuição extremamente desigual das benesses urbanísticas – equipamentos, serviços e infra-estrutura – tantas vezes assinalada” 15.
Assim, a distribuição espacial dos equipamentos de entretenimento e de infra-estrutura encontra-se inserida na organização espacial da urbe carioca, a qual se traduz pela “expressão da produção material do homem, resultado de seu trabalho social. Como tal refletirá as características do grupo que a criou” (CORRÊA, 2002: 55).
Saliente-se a notoriedade em relação à singularidade na espacialização dos atrativos culturais e naturais da Cidade Maravilhosa verificada através do Anuário Estatístico da Cidade do Rio de Janeiro 1998/1999, o qual reflete uma concentração dos equipamentos turísticos e de atrativos em determinadas porções do município. No mapa a seguir pode-se notar a concentração mencionada.
Os atrativos culturais são observados em sua maioria no núcleo central da cidade em razão da concentração de bens tombados e da manutenção de logradouros importantes para a história da cidade. O mapa do Turismo Cultural na área central da cidade do Rio de Janeiro encontra-se disposto abaixo. Nele percebe-se a localização detalhada dos principais atrativos culturais da cidade.
Mapa Turístico da Cidade do Rio de Janeiro

Fonte: Riotur, 2004
Por isso, dentre os novos usos conferidos à área central, destaca-se o papel do turismo cultural, cuja dinâmica refere-se à convergência de fluxos diversos propiciados pelos incrementos dos roteiros culturais, tendo como principais atividades os espetáculos teatrais, as exposições, os eventos, restaurantes e bares, além da visita ao patrimônio cultural, o qual está representado por museus, monumentos e sítios históricos.
Segundo Vaz e Jacques (2003), a materialização e a espacialização da cultura na Área Central depende de seus equipamentos culturais e sua concentração de lugares culturais16, os quais denotam aspectos específicos dependendo dos contextos históricos em quês estão inseridos.
Neste contexto, o turismo cultural na cidade do Rio de Janeiro caracteriza-se por estar situado em áreas urbanas dotadas de infra-estrutura turística. O sítio histórico da cidade e alguns pontos da Zona Sul carioca concentram os atrativos culturais oferecidos ao turista, permitindo observar a concentração de bens pertencentes ao patrimônio histórico, assim como a monumentalidade expressa através das edificações17. Resta salientar a gastronomia carioca como um dos mais procurados atrativos culturais cariocas ressaltando a feijoada, os rodízios de churrasco e as iguarias portuguesas.
De um modo geral, o turismo cultural não é o principal elemento motivador do fluxo turístico na cidade do Rio de Janeiro, pelo contrário, ele atua na complementação dos roteiros turísticos que enfatizam os atrativos naturais, principalmente praias e os mirantes do Corcovado e do Pão-de-Açúcar. Todavia, a demanda se inverte em função do Carnaval carioca, quando ocorre “O Maior Espetáculo da Terra” com os desfiles das Escolas de Samba.
Sendo assim, a atividade em tela não atingiu os padrões europeus de turismo cultural de massa, permanecendo em um pequeno segmento, o denominado turismo alternativo. Todavia, observa-se no Rio de Janeiro o aumento na procura por atrativos culturais, resultado de políticas públicas e divulgação na mídia.
O Corredor Cultural foi uma das principais políticas de fomento cultural implementadas na cidade do Rio de Janeiro desde a década de 1980. Aprovado em 198418, o projeto visava à proteção do sítio original da cidade, onde se encontra grande parte do valioso acervo histórico-arquitetônico da capital fluminense.
De acordo com Machado (2002), o projeto Corredor Cultural tem por objetivo, através do resgate e valorização de antigas formas, transformá-las em espaços plurifuncionais e, conseqüentemente, criar novas centralidades que possam atrair um grande número de visitantes tendo como principal a função cultural e toda a sua diversidade, distribuída de forma contínua.
Deste modo, o Corredor Cultural contribui sobremaneira para a revitalização da Área Central do Rio de Janeiro, particularmente as redondezas da Praça XV, Lapa/Cinelândia, Largo de São Francisco e Saara, as quais detêm uma elevada porção do patrimônio histórico e artístico carioca. Logo, as políticas públicas de ordem cultural favoreceram o recrudescimento de novos usos na área central da cidade do Rio de Janeiro como implementação de diversos centros culturais e a instalação de universidades particulares. Note o mapa do Corredor Cultural a seguir.
Mapa Corredor Cultural do Rio de Janeiro

Fonte: Instituto Pereira Passos, 1999.
O processo de refuncionalização, pelos quais alguns centros culturais passaram nas décadas de 1980 e 1990 a exemplo do Centro Cultural Banco do Brasil, Casa França-Brasil, Paço Imperial, dentre outros, gerou uma nova organização espacial na área central da cidade. Novos fluxos foram atraídos em decorrência da atribuição de novas funções a formas espaciais pretéritas, as quais constituem verdadeiras rugosidades. Estas “não podem ser apenas encaradas como heranças físico-territoriais, mas também como heranças sócio-territoriais ou sócio-geográficas” (SANTOS, 2002: 43).
Desta forma, destacam-se algumas formas pretéritas na paisagem urbana carioca contribuindo para ampliar o fluxo turístico-cultural existente no recorte em foco. A seguir, alguns exemplos do patrimônio cultural do Rio de Janeiro serão melhor explicitados a fim de ilustrar e respaldar o estudo em tela.
Uma das áreas do Corredor Cultural Carioca é o Largo de São Francisco, tendo como um dos destaques o Real Gabinete Português de Leitura. Este foi construído em estilo de arquitetura manuelina, sendo fundado em 1837 e tombado na década de 1970 para preservação de seu patrimônio. Possui mais de 350.000 volumes em seu acervo bibliográfico, reunindo obras raras dos séculos XVI, XVII, XVIII.
Real Gabinete Português

Fonte: Riotur, 2004
O Largo da Carioca constitui-se um logradouro de relevância para a área central carioca em virtude de abranger aspectos da cultura carioca, além de abrigar o Convento de São Antônio, importante exemplar colonial do Rio Antigo. A foto abaixo demonstra a dinamicidade conferida à área, assim como ao fundo o Convento de Santo Antônio.
Largo da Carioca

Fonte: Foto autora, 2003.
A Cinelândia e a Lapa formam uma área do Corredor Cultural, tendo em vista sua extrema efervescência cultural, no tocante a concentração de equipamentos de entretenimento de âmbito cultural como cinemas, teatros, centros culturais, além de bares e restaurantes, conferindo a estes espaços uma notória centralidade tanto em relação ao turismo quanto à população carioca . A Cinelândia apresenta formas monumentais como o Theatro Municipal e a Biblioteca Nacional e a Lapa caracteriza-se pelo famoso Aqueduto da Carioca ou os Arcos da Lapa. Estas formas estão indicados a seguir.
Cinelândia

Fonte: Riotur, 2004.
Biblioteca Nacional

Fonte: Foto da Autora, 2002.
Theatro Municipal

Fonte: Riotur, 2004
Arcos da Lapa
A área denominada Praça XV pelo Corredor Cultural abrange mais que os limites da Praça XV de Novembro, sendo uma ampla área dotada de centros culturais e monumentos históricos. Dentre eles destacam-se o Paço Imperial e o Centro Cultural Banco de Brasil, dentre outros fixos sociais. A próxima foto destaca a Praça XV e a Estação das Barcas e foto posterior mostra o paço Imperial detalhadamente, o qual desempenha a função de centro cultural na atualidade.
Praça XV de Novembro

Fonte: Jornal do Brasil, 2004
Paço Imperial

Fonte: Jornal O Globo, 2003
Neste sentido, o turismo cultural se configura como um dos atores presentes nas transformações ocorridas no espaço urbano carioca, em razão de se constituir em uma das muitas formas de apropriação do espaço pelo capital.
Considerações Finais
“Hoje, cada vez mais conscientemente, a geografia toma para si a responsabilidade de produzir uma verdadeira interpretação dos fenômenos, por meio de uma inovadora análise espacial. Isto implica manter-se fiel ao compromisso de exprimir primordialmente a importância e o alcance da dimensão espacial dos fenômenos que ela estuda” (GOMES, 2002: 7).
Neste ínterim, reconhecer e analisar os fenômenos do espaço urbano central da Cidade do Rio de Janeiro sob o olhar geográfico se tornou fundamental para o delineamento das reflexões preliminares deste estudo. De fato, Claval (1999: 11) acredita que o olhar do geógrafo não dissocia os grupos dos territórios que organizaram e onde vivem (...) ele debruça-se sobre os laços que os indivíduos tecem entre si, sobre a maneira como instituem a sociedade, como a organizam e como a identificam ao território no qual vivem ou com o qual sonham”.
Desta forma, tecer algumas reflexões sobre a interface entre turismo, espaço e cultura não é uma tarefa simples, pois envolve uma série de relações complexas entre sociedade e espaço. No entanto, cabe uma tentativa de elucidar as indagações iniciais por meio de algumas considerações.
Em geral, a atividade turística apresenta uma relação dialética com o espaço geográfico e sua organização espacial à medida que, ao atrair fluxos, principalmente de turistas para uma determinada área, traz consigo implicações que se manifestam na própria modificação do espaço. Por sua vez, o espaço expressa estas alterações com emergência de novas territorialidades e dinâmicas sociais, sendo capaz de selecionar, direcionar e produzir outros fluxos.
Esta relação está atrelada à dinâmica capitalista, a qual reabilita formas pretéritas cristalizadas em estado de obsolescência a partir de práticas intervencionistas sob o comando, geralmente, da gestão local ou municipal. Esta reapropriação do patrimônio edificado se realiza através dos processos de revitalização e refuncionalização, pois, a partir destas medidas são redefinidos padrões estéticos e de consumo, além da inserção de elementos próprios do capital. Assim, cafés, livrarias, lojas de souvenirs são instaladas em espaços culturais a fim de estimular não somente o consumo das mercadorias comercializadas, mas também o consumo cultural.
Diante deste contexto, o turismo cultural na cidade do Rio de Janeiro foi impulsionado pelo projeto Corredor Cultural, o qual auxiliou a revitalização desta área e a refuncionalização de alguns fixos sociais importantes para a memória da cidade, por ter sido um dos projetos pioneiros neste sentido.
Não obstante, com o decorrer da década de noventa, surgem outros projetos buscando elevar a participação dos cariocas nas atividades culturais na área central como “Fins de Semana no Centro”, “Conhecendo o Rio à Pé”, dentre outras iniciativas. No bojo dos acontecimentos, novos centros culturais foram surgindo em razão da lógica de preservação imbuída no ideário social criado pelas políticas públicas de valorização da área central e pela divulgação de roteiros alternativos nas agências de turismo.
Nessas condições, as políticas públicas implementadas associadas à ampliação do turismo cultural formam territorialidades nos lugares culturais, alterando as dinâmicas do espaço geográfico em análise, o que propicia a formação de novos atores no cenário turístico carioca, assim como confere à paisagem urbana uma fisionomia diferenciada.
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