Pesquisas recentes demonstram o crescente interesse e mobilização das organizações empresariais pelos assuntos sociais. No campo acadêmico, por sua vez, a criação em 2003 de uma nova área dedicada à "Gestão Social e ambiental" no Encontro da associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em administração sinaliza de forma inequívoca a importância que os assuntos relacionados à Responsabilidade Social alcançaram nos últimos anos. Neste contexto, para o campo acadêmico e profissional, estabelecer bases conceituais mais sólidas e meios de avaliação mais consistentes são questões que se apresentam como forma de garantir que esta efervescência em torno do tema não resulte apenas em mais um modismo passageiro, tão comum na ciência e na prática administrativa. O presente trabalho pretende inicialmente encontrar argumentos teóricos que viabilizem uma doutrina de responsabilidade social das corporações; buscar em seguida uma estrutura que permita estabelecer níveis ou estágios de adoção de práticas socialmente direcionadas; e, por fim, apresentar um estudo de caso piloto, que servirá como experimento para uma pesquisa de campo mais ampla.
Palavras-chave: Responsabilidade Social, Estratégia
Introdução
Pesquisas empreendidas pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão (IPEA, 2000) e pelo Instituto Ethos (2002) demonstram o crescente interesse e mobilização das organizações empresariais pelos assuntos sociais.
No campo acadêmico, por sua vez, a criação em 2003 de uma nova área dedicada à "Gestão Social e Ambiental" no tradicional Encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração (EnANPAD) sinaliza de forma inequívoca a importância que os assuntos relacionados à Responsabilidade Social alcançaram no ambiente acadêmico de administração brasileiro nos últimos anos.
Ainda que atualmente seja prática corrente a preocupação com temas sociais por parte das empresas, e que os investimentos sociais realizados por empresas tenham sido ampliados consideravelmente, a doutrina da responsabilidade social não é um consenso, já conheceu reveses legais, como o caso Dodge X Ford, em 1919 (ASHLEY, COUTINHO e TOMEI, 2000), e ainda encontra vozes poderosas nos meios acadêmicos a criticarem os investimentos sociais corporativos (FRIEDMAN, 1970; e Leavitt, 1958).
O Movimento de mudança em direção à responsabilidade social não pode, portanto, ser considerado homogêneo. Muitas vezes seu emprego apresenta-se condicionado por idéias relacionadas ao simples reforço da imagem institucional da organização; ou ainda como uma ação de "caridade" ou "benevolência" dos líderes empresariais preocupados com os nossos graves problemas sócio-ambientais. Apesar de minoritária, cada vez ganha mais corpo a corrente que busca superar o reducionismo mecanicista das ações dissociadas da razão de ser da empresa, academicamente conceituada como "benevolência" empresarial (Ashley, 2003).
Esta visão aponta para a Responsabilidade Social Corporativa como um integrante do componente ético das formulações estratégicas das organizações. Neste sentido, a Responsabilidade Social pode ser entendida como uma forma de garantir - em longo prazo e de forma sustentada - recursos indispensáveis à sobrevivência da organização, reduzindo assim as incertezas advindas do ambiente no qual a organização se insere, conforme as concepções da perspectiva da dependência de recursos de Pfeffer e Salancik (1978).
Neste contexto, para o campo acadêmico e profissional, estabelecer bases conceituais mais sólidas e meios de avaliação mais consistentes são questões que se apresentam como forma de garantir que esta efervescência em torno do tema não resulte apenas em mais um modismo passageiro, tão comum na ciência e na prática administrativa.
Por outro lado, tanto no âmbito acadêmico como no profissional, terminologias distintas muitas vezes referem-se a atividades similares e o mesmo termo é muitas vezes utilizado de diferentes formas e com diferentes enfoques (Curado, 2003). Assim, trabalhos recentes (OLIVEIRA, 2001; Ashley, Coutinho e Tomei, 2000 e CURADO, 2003), buscam clarificar o campo conceitual do tema e indicar formas de classificação e avaliação das atividades sociais empreendidas pelas empresas.
Também recentemente, pesquisadores vêm defendendo uma abordagem mais estratégica e integrada aos negócios da organização para as iniciativas empresariais no campo social (Porter e Kramer, 2002 e Prahalad e Hammond, 2002), como forma de justificar este tipo de investimento e garantir eficácia econômica e social às iniciativas sociais e aos negócios da empresa.
É oportuno, portanto, inicialmente encontrar argumentos teóricos que viabilizem uma doutrina de responsabilidade social das corporações; buscar em seguida uma estrutura que permita estabelecer níveis ou estágios de adoção de práticas socialmente direcionadas; e, por fim, verificar no campo prático de que forma as empresas efetivamente empreendem suas ações sociais, comparando com o arsenal teórico e metodológico estabelecido.
Doutrina de Responsabilidade Social Corporativa
Uma primeira provocação a uma doutrina de responsabilidade social das corporações surge quando Curado (2003) recorda a relação estabelecida por Fayol (1975) entre Responsabilidade e Autoridade. Para o célebre autor, "não se concebe autoridade sem responsabilidade (...) a responsabilidade é um corolário da autoridade, sua conseqüência natural, sua contrapartida indispensável." (p. 35). Onde se pode encontrar uma "autoridade social corporativa" para justificar a correspondente responsabilidade?
Já Leavitt (1958) baseia-se na idéia de função institucional. Segundo ele, outras instituições, como governos, igrejas, sindicatos e organizações sem fins lucrativos já existem para atuar sobre as funções sociais; e os gerentes corporativos não têm competência, tempo ou mandato para tais atividades, as quais constituiriam, caso executadas, em tarifas sobre os lucros. Mais ainda, os gerentes não foram eleitos democraticamente para o desempenho de funções sociais, como são os políticos. Aqui parece reforçar-se a idéia de que uma doutrina de responsabilidade social das organizações empresariais, para justificar-se, necessita encontrar uma fonte de autoridade que a esta responsabilidade corresponda.
Para identificar a autoridade corporativa que dá origem à responsabilidade social é de grande valia a perspectiva histórica apresentada por Tomei (1981) sobre a atividade corporativa e a responsabilidade social das empresas.
Tomei (1981) destaca inicialmente o período anterior ao século XII da Era Cristã, um momento pré-empresarial no qual a pequena quantidade de empresas existentes era influenciada sobretudo pelas suas lideranças, destacando-se a ética pessoal baseada na consciência do empresário, que decidia o que era certo ou errado influenciado sobretudo pelas crenças religiosas e suas afiliações sociais. Outra influência exercida nesta época foram as leis e regras de conduta então existentes, como o Código de Hammurabi, que regulamentavam a atividade econômica e comercial.
Entre os séculos XII e XIV o mundo empresarial entra na era do pequeno capitalismo, com a introdução do crédito na formação da empresa. Nesta época, a influência da Igreja Católica é marcante, a qual procurava definir o certo e o errado na economia, baseada em duas doutrinas para definir o comportamento dos capitalistas: o preço justo e a usura.
Já no século XVIII, as idéias liberais de Adam Smith ilustram o ambiente iluminista que possibilitaria as revoluções Mercantilista e Industrial e o surgimento do Capitalismo Moderno, no qual o empresariado pouca importância dava à questão da responsabilidade social.
Entretanto, convém ressaltar que a responsabilidade social corporativa era aceita como doutrina nos EUA e na Europa até o século XIX, pois o direito de conduzir negócios de forma corporativa era um privilégio dependente de concessão do Estado ou da Monarquia, e não um ato de interesse privado (ASHLEY, COUTINHO e TOMEI, 2000).
O advento da independência americana possibilitou o surgimento de legislações de caráter liberal, que permitiam a auto-incorporação independente de concessão do Estado, inicialmente para serviços de interesse público e posteriormente para propósitos de condução de negócios privados (ASHLEY, COUTINHO e TOMEI, 2000). Assim, percebe-se que a capacidade de auto-incorporação, presente nas modernas organizações empresariais, estabelece uma autoridade . Ora, esta autoridade de auto-incorporação certamente virá acompanhada de responsabilidade em relação aos efeitos que esta atividade empresarial provocará na sociedade, se aceitarmos a relação autoridade/responsabilidade proposta por Fayol (1975). Isto parece ir de encontro às premissas de Leavitt (1958) no que tange a função institucional da empresa, e corrobora para o estabelecimento de uma doutrina de responsabilidade social.
Friedman (1970) utiliza sobretudo o princípio do direito de propriedade para investir contra ações mais robustas de responsabilidade social. Argumenta o autor que a direção corporativa é um agente dos acionistas, não possuindo autoridade e direito para fazer qualquer coisa que não atenda aos objetivos de maximização de lucros, dentro dos limites da lei. Assim, para ele, agir diferente disto é uma violação não só legal, mas sobretudo ética e moral, da direção corporativa da organização.
Porter e Kramer (2002) analisam as críticas Friedman (1970) às ações de Responsabilidade Social Corporativa, afirmando que, no atual estágio em que se encontram os programas filantrópicos das grandes organizações - sem foco e sem objetivos claros - realmente tem razão o eminente economista, que propõe ser mais justo que os gestores das companhias abstenham-se de fazer doações em caráter corporativo, privilegiando assim a distribuição de lucros e salários, de modo que acionistas e empregados façam, individualmente, suas doações se e a quem quiserem.
Porter e Kramer (2002), entretanto, indicam outro caminho no qual a filantropia corporativa justifica-se. Começam ressaltando que Friedman (1970) tem implícito o pressuposto de que os objetivos econômicos da empresa seriam antagônicos aos objetivos sociais; e que doações individuais têm a mesma repercussão que as corporativas.
Porter e Kramer (2002) entendem que, caso o programa de filantropia da organização desenvolva-se no âmbito do contexto competitivo, mostrado na figura 1, será possível alinhar os objetivos econômicos e sociais e o efeito do programa corporativo será significativamente superior ao de simples doações individuais. Em poucas palavras, quanto mais uma melhoria social relaciona-se ao negócio, mais ela traz benefícios econômicos e sociais.
Porter e Kramer (2002) analisam também vários tipos de ações possíveis em função do contexto competitivo, levando em conta as condições dos fatores de produção e da demanda, o contexto de estratégia e de rivalidade e o ambiente das indústrias relacionadas e de apoio, indicando critérios para desenvolver programas de filantropia corporativa alinhados à estratégia da empresa: (1) Seleção dos melhores programas; (2) Articulação com outros financiadores; (3) Controle e melhoria do desempenho dos programas; e (4) Ampliação do conhecimento e da prática na área.

Figura1. Contexto Competitivo (PORTER, 1993)
Em síntese, a articulação das idéias de Fayol (1975), Tomei (1981) e Porter e Kramer (2002) nos permite estabelecer uma base bastante sólida para sustentar uma doutrina de responsabilidade social.
Em complemento, a Perspectiva da Dependência de Recursos, proposta por Pfeffer e Salancik (1978) oferece um ponto de vista privilegiado para o estudo das relações da organização com os diversos públicos que a sustentam, constituindo-se em oportuno ferramental teórico para a análise do alinhamento estratégico das iniciativas sociais das empresas.
Pfeffer e Salancik (1978) partem da idéia de que a sobrevivência de uma organização depende principalmente do gerenciamento das demandas dos grupos de interesse que garantam os recursos dos quais ela depende. Isso parece reforçar o caráter de coalizão das organizações, onde o corpo de acionistas e sua legítima demanda por dividendos, valorização e crescimento, é apenas um componente a mais, sem dúvida poderosíssimo, mas não absoluto, do sistema de forças que suporta a existência da organização.
A diferenciação entre eficácia e eficiência proposta por Pfeffer e Salancik (1978) é esclarecedora. Como eles ressaltam, não é uma mera questão semântica, como de fato nos habituamos a ver. Fica muito fácil perceber, assim, a eficácia como uma medida aferida de uma perspectiva externa à organização ou, como destacado, uma questão sócio-política. Relacionado à eficácia surge o tema da responsabilidade social. Certamente a eficácia da organização será percebida pelo mercado/sociedade com significativa influência do seu posicionamento diante de assuntos sociais direta ou indiretamente relacionados às suas atividades.
Ao discutirem as possibilidades de ação da gerência Pfeffer e Salancik (1978) lembram que "muitas organizações estiveram em dificuldades por falharem em entender estes grupos e organizações dos quais dependem ou por falharem em ajustar suas atividades para assegurarem apoio continuado" (p.18). Uma vez mais se reforça a perspectiva de coalizão, de rede de interesses com diversos stakeholders, o que cada vez mais relativiza o antes absoluto poder dos interesses dos acionistas. Neste contexto, destacam-se os papeis do gerente como (1) um ativo "manejador" de restrições e do contexto social no qual a organização está inserida e (2) um processador de demandas na organização, ou seja, buscando criar ambientes mais favoráveis à organização e buscando melhor adaptar a organização às restrições do ambiente. Ambos os papéis, na opinião dos autores, destacam a necessidade da gerência adotar uma "orientação externa" para procurar compreender o funcionamento organizacional.
Os rearranjos induzidos por mudanças ambientais podem inclusive levar a alterações na estrutura da coalizão que mantém a organização, levando à revisão mesmo dos objetivos organizacionais
Outro ponto muito importante é a representação que a organização e seus integrantes constroem do ambiente. Na verdade, como salientam Pfeffer e Salancik (1978), são várias e diferentes construções elaboradas pelos diversos atores sociais que compõem a organização. Este processo de representação do ambiente é condicionado pela percepção do passado e por um processo "atencional", ou seja, a forma como a organização capta, filtra e analisa as informações do ambiente, em função de sua estrutura, suas atividades e seu sistema de informações.
Problemas ocorrem quando a organização falha na representação do ambiente. Uma destas falhas diz respeito a erros na "leitura" das relações de interdependência. Outro problema sério é a gestão de demandas conflitantes. Como Pfeffer e Salancik (1978) destacam, este problema é potencializado sobretudo quando a organização não se preocupa em planejar a resolução, gerando conflitos com resultados imprevisíveis.
Parece, então, que a rede de interdependência amplia-se continuamente e a gerência mais uma vez é desafiada a desenvolver habilidades que cada vez mais se afastam da arcaica busca da eficiência dos fatores internos à organização.
À medida que o ambiente é construído e representado, muito mais do que aferido, parece ampliar-se velozmente a percepção cada vez mais complexa deste ambiente. Cada vez mais variáveis ecológicas e sociais são agregadas à extensa teia de inter-relações que a organização tece, num virtual efeito-cascata. Cada ato, cada ação ou reação da organização ou de um de seus indivíduos detona uma imprevisível e ampla cadeia de acontecimentos, que cada vez mais tomamos conhecimento e cada vez menos controlamos.
Convém, assim, destacar a convergência das idéias de Pfeffer e Salancik (1978) e de Porter e Kramer (2002). Um primeiro ponto é a relação que Pfeffer e Salancik (1978) estabelecem entre eficácia e o ambiente externo, a conseqüente necessidade de gerenciar demandas dos diversos grupos de interesse como forma de garantir a sobrevivência da organização, e a dependência de recursos externos à organização como motor de mudança.
Porter e Kramer (2002) realizam uma análise das ações de responsabilidade social das organizações defendendo o ponto de vista de que estas somente se justificam quando ajustadas ao contexto competitivo pois, desta forma, é possível alinhar objetivos sociais aos objetivos do negócio da organização e gerar valor tanto para iniciativa social quanto para o negócio da organização.
Ora, percebe-se que Porter e Kramer (2002), assim como Pfeffer e Salancik (1978), têm a análise focada sobretudo nas relações da organização com a sua dependência a fatores e recursos externos. As idéias de Porter e Kramer (2002) acabam, portanto, validando a Perspectiva da Dependência de Recursos de Pfeffer e Salancik (1978) como estratégia de implementação e avaliação das iniciativas das organizações no campo social.
Estágios e Classificação das Relações Empresa/Sociedade
A discussão avança então no sentido de se estabelecer conceitos e métodos para a efetiva implantação de ações que garantam o cumprimento desta responsabilidade social a ser assumida pela organização empresarial. Constata-se, nesse caso, que terminologias como Marketing Social, Responsabilidade Social e Cidadania Empresarial são utilizadas de forma pouco criteriosa, onde algumas vezes um mesmo termo descreve atividades distintas e, outras vezes, termos diferentes referem-se a atividades similares (CURADO, 2003).
Esta idéia é corroborada por Ashley, Coutinho e Tomei (2000), ressaltando que na vasta literatura contemporânea sobre o tema a conceituação de Responsabilidade Social e Cidadania Empresaria é apresentada de forma confusa e contraditória.
Ashley, Coutinho e Tomei (2000) demonstram ainda como se trava nas últimas três décadas um intenso debate teórico acerca de conceitos e definições quanto à Responsabilidade Social e termos correlatos, sem que tenhamos chegado a um consenso teórico ou prático da questão.
Curado (2003) destaca que a ação voltada à responsabilidade social é incipiente no empresariado brasileiro, ainda pautada no caráter filantrópico, cabendo aos estudiosos destacar as formas de atuação e auxiliar o desenvolvimento prático das diversas abordagens da questão, ressaltando a validade de utilização de indicadores para discernir as diferentes formas de atuação.
Vale também salientar que, na opinião de Ashley, Coutinho e Tomei (2000), o conceito de responsabilidade social corporativa vem consolidando-se como algo intrinsecamente interdisciplinar, multidimensional e associado a uma abordagem sistêmica e focada nas relações entre os stakeholders, requerendo a incorporação à orientação estratégica, refletida em desafios éticos para as dimensões econômica, ambiental e social dos negócios.
Resta, neste ponto, definir um critério ou classificação das iniciativas no campo social promovidas pelas organizações. Curado (2003), ao analisar as possibilidades de atuação social das empresas logrou estabelecer um "modelo de síntese da atuação social das empresas" (p. 7), reproduzido na figura 2, que permite estabelecer o tipo de atuação da organização em relação ao seu ambiente externo.
A autora assume uma determinada definição de Responsabilidade Social como adequada ao modelo que propõe:
"uma forma de conduzir os negócios da empresa de tal maneira que a torna parceira e co-responsável pelo desenvolvimento social. A empresa socialmente responsável é aquela que possui a capacidade de ouvir os interesses das diferentes partes (acionistas, funcionários, prestadores de serviço, fornecedores, consumidores, comunidade, governo e meio-ambiente) e conseguir incorporá-los no planejamento de suas atividades, buscando atender às demandas de todos e não apenas dos acionistas ou proprietários."
(http://www.ethos.org.br/docs/institucional/, 2003)
A descrição dos diversos estágios do modelo proposto traz explícita identificação do estágio de Responsabilidade Social como Negócio com as idéias propostas por Porter e Kramer (2002); e a idéia de que o estágio de Compromisso Social supera a dicotômica relação Autoridade/Responsabilidade e leva ao estabelecimento de uma relação de parceria entre os diversos públicos envolvidos na ação.

Figura2. Modelo de Síntese da atuação social das empresas(CURADO, 2003)
Munidos, portanto, do arsenal teórico apresentado - que assegura de forma sólida uma doutrina de responsabilidade social e permite o estabelecimento de uma seqüência de níveis ou estágios para a atuação social das empresas - que se propõe o desenvolvimento de um estudo de campo que analise um grupo de empresas segundo os pressupostos até aqui levantados.
A escolha recaiu sobre a indústria de petróleo inicialmente por ser uma atividade econômica cujas práticas sócio-ambientais são freqüentemente questionadas e por ser de grande importância no contexto econômico. A intenção é analisar a atuação social das quatro maiores empresas privadas do setor petrolífero no Brasil.
Estudo de Caso Piloto
A fim de avaliar o método de pesquisa definido e os instrumentos de entrevistas desenvolvidos, decidiu-se inicialmente experimentá-los em uma das empresas.
Quanto a seus fins, o estudo proposto pode ser entendido, conforme classificação de Vergara (1998), como uma pesquisa exploratória. Por outro lado, o estudo a ser empreendido pode também ser entendido como uma pesquisa descritiva, uma vez que exporá as características de uma determinada população, neste caso a indústria de petróleo, no que concerne às práticas de responsabilidade social.
A coleta de dados incluirá investigação documental e entrevistas qualitativas em profundidade, com pauta semi-estruturada. Quanto às entrevistas, pretende-se entrevistar os executivos das empresas responsáveis pelas principais decisões quanto às ações sociais, empregados envolvidos ou não em ações de voluntariado e, se possível, clientes, acionistas, entidades parceiras e a população beneficiada pelas ações das empresas pesquisadas.
O modelo proposto por Curado (2003) permite a priori eliminar da análise do presente trabalho qualquer ação que seja realizada por obrigação legal, destacando-se, entre outras, pagamento de impostos, salários, benefícios indiretos a empregados definidos em lei ou acordos trabalhistas (vale-transporte, por exemplo) e ações ambientais decorrentes de Termos de Ajuste de Conduta ou de normas e regulamentos.
Assim, ao integrar a base conceitual sobre responsabilidade social proposta por Curado (2003) à Perspectiva da Dependência de Recursos de Pfeffer e Salancik (1978), com o apoio do conceito de Contexto Competitivo (PORTER, 1993), foram analisadas as iniciativas sociais de uma das quatro maiores empresas privadas do setor de petróleo no Brasil, a partir de entrevistas realizadas com o executivo responsável pelas principais decisões concernentes à atuação social da organização e com a dirigente responsável pelos projetos da principal entidade apoiada financeiramente pela empresa.
A empresa, de origem norte-americana, é centenária, e está instalada no Brasil desde 1915. Possui 55 mil funcionários em 180 países, com faturamento bruto global de 106 bilhões de dólares em 2001. No Brasil, apresentou um faturamento bruto de 6 bilhões e meio de reais em 2001. O entrevistado é responsável pela área de incentivos fiscais da empresa e coordena o Comitê de Responsabilidade Social da organização.
A pauta semi-estruturada da entrevista procurou levantar o histórico do desenvolvimento de ações sociais da organização; o momento em que começou a haver atividade de planejamento para a atuação social e as motivações que levaram a esta prática; a forma como as atividades de responsabilidade social se inserem no design organizacional; a descrição das principais ações empreendidas, bem como os objetivos e as metas pretendidas com estas ações; a relações com as entidades apoiadas financeiramente; as relações implícitas e explícitas da atuação social com a estratégia de negócios da empresa; as relações com os diversos stakeholders e o posicionamento no contexto competitivo.
Quanto à entidade apoiada, foi criada em 1997 no Brasil e conta atualmente com 170 empregados, atendeu cerca de 500 mil alunos de alfabetização em mais de dois mil municípios de 21 Estados Brasileiros.
A pauta semi-estruturada da entrevista buscou levantar o histórico de desenvolvimento da entidade; a forma de elaboração do seu planejamento; a sua estrutura organizacional, destacando os cargos ocupados por empregados e por voluntários; a forma de atuação e os principais projetos realizados; as relações com a empresa pesquisada, destacando os objetivos da entidade com este relacionamento e os objetivos que a entidade estima que a empresa tenha.
O executivo destacou que a atuação social da empresa no Brasil não segue qualquer alinhamento com a matriz americana, e que inicialmente era realizado de forma não planejada, apoiando ações de acordo com as preferências de seus principais dirigentes, motivados por razões éticas e religiosas. Desde 2000 houve uma mudança, que estabeleceu o foco em educação, especificamente em alfabetização; e a articulação da atuação por meio de parcerias em torno de um tema central:
"Nosso objetivo era encontrar um ponto comum. E esse é o grande segredo para fechar o elo: criar ou encontrar um meio termo para que os programas e as ações sejam feitos de forma conjunta agregando valor dos dois lados. Não é fácil, é difícil, mas é perfeitamente viável."
É interessante também que a empresa tenha optado por não criar um departamento ou divisão para tratar das ações de Responsabilidade Social, não havendo sequer um empregado integralmente dedicado ao assunto, sendo gerido por um comitê formado por um executivo ligado à área Financeira, um da área de Marketing e outro da área de Comunicação, todos coordenados pelo primeiro. O diretor de Marketing costuma participar das decisões deste comitê e encaminhar os projetos ao board da empresa no Brasil, para aprovação. Apesar de não querer revelar os valores desembolsados nas ações sociais da empresa, o entrevistado informou que mais da metade deste montante é decorrente de incentivos fiscais.
Quanto às ações sociais, o entrevistado revelou que pesou na decisão quanto aos municípios que pretendiam apoiar no programa de alfabetização, o fato de haver posto de combustível da marca no local. E que, neste caso, a participação do dono do posto é bastante incentivada. A empresa articula parcerias na cadeia produtiva também quando promove a distribuição de livros em escolas públicas com a participação do piloto de corridas patrocinado pela marca, nos locais e épocas em que se realizam corridas, neste tipo de ação, mais uma vez o dono de posto de combustível da localidade é envolvido.
O entrevistado considera que a entidade que realiza o programa de alfabetização é um exemplo de profissionalismo no terceiro setor e um grande articulador de parcerias. Para ele, o principal objetivo destas ações é implantar uma cultura de responsabilidade social em todos os níveis e relações da empresa. Neste sentido surpreende o fato de não haver participação de qualquer pessoal da área de recursos humanos no comitê de Responsabilidade Social, ainda que freqüentemente os empregados sejam motivados a envolverem-se nas ações sociais da empresa (como no caso de coleta de papel e cartuchos de impressora para reciclagem). Ele considera que o ideal é que as ações de Responsabilidade Sociais venham a fazer parte da estratégia de negócio da companhia.
Quanto ao relacionamento com a entidade apoiada, o entrevistado considera haver uma relação de parceria, e afirmou que não pretende ser apenas um financiador das ações sociais, mas envolver-se e envolver todos os seus stakholders nestas ações, influenciando desta forma toda a sua cadeia produtiva. Ele acredita que no futuro critérios de Responsabilidade Social poderão influenciar a seleção de empregados e fornecedores, ainda que isto não ocorra atualmente.
Na entidade apoiada pela empresa foi entrevista a executiva responsável pelo relacionamento da entidade com empresas privadas. Ela esclareceu que a entidade estabelece parcerias com governos, insitutições de ensino superior e empresas, e que um dos principais objetivos é que as empresas não sejam apenas financiadoras das ações, mas parceiros envolvidos em todas as etapas das atividades, contribuindo não só com dinheiro, mas com conhecimento, tecnologia, articulações com seus stakeholders e com os beneficiados pelos programas de alfabetização. Ela destacou que a empresa estudada é uma das que mais se empenham neste processo de envolvimento.
Ela considera a entidade integralmente profissionalizada, não dispondo em sua estrutura administrativa de voluntários. Para ela, o que caracteriza uma entidade de terceiro setor como profissionalizada seria uma atuação apoiada por um "tripé de sustentabilidade" composto por sustentabilidade técnica, sustentabilidade financeira e sustentabilidade administrativa. A entrevistada considera que a empresa pesquisada busca bem mais do que simples exposição com as ações que apóia, e que estas ações podem ter um impacto positivo no posicionamento estratégico da empresa.
Conclusões
Este caso-piloto parece indicar que o arcabouço teórico oferece uma base segura para um trabalho de campo mais amplo envolvendo outras empresas e entidades. Ainda que pareça difícil classificar as empresas nos estágios de atuação social propostos por Curado (2003), o que este experimento inicial sugere é que deverá ser possível posicionar as empresas a serem estudadas em um continum de evolução de suas práticas sociais não de forma absoluta, mas sim de uma em relação às outras, sobretudo se a amostra de empresas for de uma mesma indústria e de tamanhos semelhantes.
A perspectiva da dependência de recursos, conforme proposta por Pfeffer e Salancik (1978) permanece como um robusto referencial teórico, mais não foi possível vislumbrar de que forma poderá ser aproveitado no processo de análise da atuação social da empresa, na medida em que parece não ser possível estabelecer alguma relação de causa e efeito entre ações realizadas e recursos garantidos
Neste sentido, parece ser adequado estudar empresas dentro do mesmo setor econômico e de tamanhos semelhantes, o que confirma a opção de trabalhar com as quatro maiores empresas privadas de petróleo. Dados da Revista Exame (2003) indicam que outras empresas deste setor são significativamente menores que estas, quando comparados faturamento, número de empregados e outros dados. Por outro lado, a maior empresa de petróleo do País é de controle estatal. No caso desta, além do tamanho ser significativamente maior que as estudadas, as ingerências de ordem política na sua gestão, sobretudo no que tange aos investimentos sociais, poderá invalidar uma comparação.
Outro aspecto a ser considerado é a possibilidade de serem realizadas pelo menos duas entrevistas em cada empresa, de modo a verificar a opinião de pelo menos dois dirigentes e checar as convergências e divergências. Quanto às entidades, é recomendável também que sejam entrevistadas pelo menos duas entidades apoiadas por cada empresa. Seria bastante significativo caso seja identificada uma entidade que receba apoio de pelo menos duas das empresas estudadas, de forma a comparar as formas de relacionamento.
Também deverá ser incluído no processo de levantamento de dados a utilização de outras fontes como páginas de internet das empresas e entidades envolvidas e do Instituto Brasileiro do Petróleo; relatórios anuais das empresas envolvidas, anais de congressos da indústria de petróleo e material de divulgação das empresas, sobretudo aqueles referentes às suas ações sociais.
Por fim, convém buscar o apoio de ferramentas de análise de atuação social em bases mais quantitativas como, por exemplo, os modelos de balanço social propostos pelo Instituto Ethos e pelo IBASE.
Desta forma, almeja-se contribuir para os estudos acadêmicos relacionados à gestão social, bem como para o aprimoramento das práticas sociais das empresas.
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VERGARA, Sylvia Constant. Projetos e relatórios de Pesquisa em Administração, São Paulo: Atlas, 1998.
FICHA DE IDENTIFICAÇÃO
Marco Bruno Manzolillo
Mestre em Administração (Organizações, Estratégia e Sistemas) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Professor das Faculdades Integradas Simonsen
E-mail: marcobruno@globo.com |